30/03/2021
ARTIGO

A Europa vai precisar de metais estratégicos

Por Carlos Victor Rios da Silva Filho * 

No cenário atual, o termo mineral estratégico ou crítico tem sido utilizado para se referir aos recursos minerais fundamentais para indústria moderna de tecnologia.  Somado a isto, a sua produção está sujeita a interrupções por diversos fatores, dentre os quais geológicos, políticos ou técnicos. Nesse sentido, a Europa encontra-se diante de um grande desafio: o de assegurar o fornecimento de matérias primas estratégicas, em particular os metais. A Europa consome entre 25% e 30% dos metais existentes no mundo, mas produz a cerca de 3 a 5%. Países como Portugal, Espanha, Alemanha e França no passado foram grandes produtores de minério, e a Europa como um todo foi a principal região mineira do mundo a 150 anos atrás. Parou de produzir não porque acabou o minério, mas por opção, uma vez que investir na transformação de matéria prima se mostrou uma atividade mais lucrativa. Dessa maneira, focou seus interesses estratégicos apenas em garantir o fornecimento do petróleo e de outros combustíveis fósseis. Nesse contexto, a mineração passou a ter má reputação e foi considerada como uma atividade inimiga do meio ambiente.  A consequência disso foi a migração das atividades de mineração para regiões da China, África e América do Sul. Hoje, em pleno século XXI, com a crescente demanda por minerais considerados críticos, a mineração passou a ser uma atividade estratégica do ponto de vista geopolítico, em especial dos minerais denominados como críticos (antimônio, lítio, gálio, terras raras, selénio, telúrio, índio, e muitos outros)

Atualmente a China é a líder mundial na produção destes minerais, em especial as terras raras. Apesar da sua capacidade de produção, a China consome a maior parte do que produz. Nesse cenário, mais de 70% dos produtos com terras raras consumidos no mundo são exportados pela China, e apenas uma pequena fração de sua produção mineral é exportada.  Para se ter uma ideia, a China fornece 98% dos elementos de terras raras consumidos na Europa. Neste ponto, a indústria de tecnologia chinesa cresce com uma velocidade tão grande, que em 2006, argumentando para a necessidade de limitar os danos ambientais provocados pela mineração excessiva, começou a impor cotas de exportação de terras raras. Esta cota foi extinta apenas em 2014, após reação da Organização Mundial de Comercio provocada pelos EUA, Japão e União Europeia. Além disso, a China já deu demonstrações do seu controle sobre as exportações de minerais quando embargou o envio terras raras para o Japão em 2010 por questões geopolíticas. E desde então, a China tem utilizado as suas reservas minerais como instrumento de influência política e econômica no cenário internacional. Assim como acontece no atual cenário de emergência sanitária global, a China possui uma grande vantagem competitiva no diz respeito à segurança energética, o que impõe uma total dependência geoeconômica e geopolítica dos demais países do mundo. Para supri essa dependência, o United States Geological Survey (USGS) anunciou uma colaboração com a Geoscience Australia e o Geological Survey of Canada para descobrir e extrair minerais mais críticos nos Estados Unidos, Austrália e Canadá.

Na Europa, os esforços estão centrados Aliança Europeia para as Matérias-Primas (European Raw Materials Alliance - ERMA), cujo objetivo é reduzir a dependência externa e fortalecer a segurança no abastecimento. Diante desse desafio, o regresso da Europa na liderança da extração de minérios críticos passa a ser uma aposta estratégica para Bruxelas. Isso ocorre devido as projeções econômicas que levam em consideração o Pacto Ecológico Europeu e as previsões para a produção de baterias, turbinas eólicas, telas táteis e muitas outras tecnologias necessárias para tornar a Europa o primeiro continente com impacto neutro no clima até 2050 em conformidade com Acordo de Paris. Para se ter uma ideia, no último relatório do Banco Mundial (“The Growing Role of Minerals and Metals for a Low Carbon Future”), estima-se para os próximos anos um aumento na demanda de 965% para o Lítio, 585% para Cobalto, 383% para o Grafite e 241% para o Índio.

Nesse cenário, para que qualquer país Europeu se torne protagonista de um mercado mundial de tecnologias limpas, de modo a transforma os desafios climáticos e ambientais em oportunidades para as futuras gerações, será preciso investir em prospecção mineral de ambientes geológico complexos. Principalmente em países como Portugal, que muito embora possua pequenas dimensões territoriais apresenta uma enorme diversidade de minerais estratégicos em seu território. Do contrário, o continente Europeu vai continuar dependente de matérias-primas e outros componentes necessários para a tão sonhada transição energética do século XXI. Como consequência, poderá ficar irreversivelmente atrás dos seus concorrentes no mercado mundial de tecnologia.

* Carlos Victor Rios da Silva Filho é Geólogo e doutor em Geologia Econômica e Prospecção. Atualmente é colaborador no projeto HORIZON2020 GREENPEG. E-mail: carlosvictor02@yahoo.com.br