Para a FIEMG, acordo entre Mercosul e UE incentiva indústria brasileira

21/01/2026
O Brasil terá chances de disputar fases mais rentáveis da cadeia de minerais críticos, como, por exemplo, a produção de insumos para baterias, ímãs permanentes e tecnologias de transição energética.

 

Com o recente acordo assinado entre Mercosul e a União Europeia, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) entende que o bloco europeu deverá aumentar o interesse por minerais críticos e o Brasil terá que optar entre industrializar a cadeia de minerais críticos ou acelerar a exportação de commodities em meio à corrida global por terras raras. Após quase 25 anos de negociações, o Brasil conseguiu com o acordo preservar o direito de adotar políticas industriais no setor, incluindo a possibilidade de restringir ou taxar exportações de minerais críticos, com alíquotas de até 25%, para estimular processamento, refino e beneficiamento no País. Isto significa que o Brasil terá chances de disputar fases mais rentáveis da cadeia de minerais críticos, como, por exemplo, a produção de insumos para baterias, ímãs permanentes e tecnologias de transição energética, em vez de se limitar à venda de minério bruto.

Para a FIEMG, o governo brasileiro terá como desafios a tecnologia aplicada, regulamentação e investimento para reduzir a dependência da China e aproveitar a transição energética global. Em um cenário global com demanda crescente por terras raras – cada vez mais necessárias para o futuro -- especialmente para produtos eletrônicos, energias renováveis e de defesa comercial, a China domina a produção e o refino, enquanto o Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras, estando em Minas Gerais a maior parte delas.

Além do interesse dos europeus pelos minerais de extração e processamento complexos e caros, os Estados Unidos também miram a Groenlândia, ilha pertencente à Dinamarca, e uma das mais ricas em reservas de gás natural e recursos como lítio e elementos de terras raras (ETRs), que são essenciais para tecnologias verdes — além de outros minerais e metais valiosos. Três dos depósitos de ETRs da Groenlândia localizados nas profundezas do oceano podem conter as maiores reservas do mundo, com grande potencial para a fabricação de baterias e componentes elétricos essenciais para a transição energética global.

Com o acordo entre Mercosul e União Europeia, o Brasil aumentou o interesse em explorar o próprio potencial estratégico para diversificar o mercado, atrair investimentos e criar uma cadeia produtiva nacional. A FIEMG já investe no Instituto de Terras Raras do Centro de Inovação e Tecnologia (CIT SENAI ITR), em Lagoa Santa, na Grande Belo Horizonte, espaço dedicado à pesquisa, beneficiamento e desenvolvimento de novas tecnologias ligadas a materiais críticos. O Centro tem a primeira fábrica de ímãs permanentes da América Latina, início do projeto pioneiro voltado ao desenvolvimento de ímãs de terras raras no Estado e à otimização da produção de produtos de nióbio e terras raras, em BH, Itaúna e Lagoa Santa. Em dezembro de 2025, o CIT SENAI ITR produziu, experimentalmente, o primeiro lote de ímãs de terras raras, que chega a pesar entre 5 e 10 kg. A produção prossegue em 2026, ainda em baixo volume. “Em 2026, o instituto irá aprimorar a qualidade do ímã, customizando-o conforme as diferentes aplicações industriais. Lembrando que o SENAI não pode comercializar o material”, disse André Pimenta, coordenador de pesquisa do instituto.

O CIT SENAI ITR segue utilizando matérias-primas da China, mas há perspectiva, ainda que em pequena escala, de usar insumos nacionais ainda em 2026. A princípio, o material será fornecido por três mineradoras que integram o projeto MagBras, do qual o instituto também faz parte. Em relação à infraestrutura do instituto, o Sistema FIEMG está em negociação para a compra de um importante equipamento. Trata-se de forno de redução eletrolítica, que transforma os óxidos de terras raras em metais. Esse movimento no mercado é um passo importante para o ITR e o MagBras porque a máquina vai operar numa escala intermediária entre projeto piloto e industrial.

Além do ITR, em dezembro passado a FIEMG negociou, no Reino Unido, a criação de um hub tecnológico para baterias e eletrificação. A proposta foi apresentada durante missão internacional liderada pelo presidente da entidade, Flávio Roscoe, que debateu o futuro da mobilidade elétrica, o uso responsável de matérias-primas e as possibilidades de integração entre países da América do Sul e o Reino Unido. O hub deverá reunir centros de pesquisa, universidades, empresas e instituições industriais com foco na inovação de soluções para baterias, eletrificação e economia verde.