Energia passa a definir a competitividade da mineração na América Latina

02/07/2026
Estudo inédito com especialistas de seis países latino-americanos revela que os principais desafios do setor estão cada vez mais ligados à infraestrutura energética, segurança operacional e capacidade de sustentar a expansão da produção mineral.

 

A mineração latino-americana vive um momento paradoxal:  nunca houve tanta demanda por minerais considerados essenciais para a transição energética global e para a digitalização da economia. Ao mesmo tempo, nunca foi tão evidente que a expansão da produção depende de fatores que extrapolam a geologia e a qualidade dos depósitos minerais.

Foi a partir dessa constatação que a Aggreko lançou o e-book “A nova equação da mineração na América Latina: os limites invisíveis entre energia e operação”, um estudo que procura lançar luz sobre os desafios estruturais que podem determinar a competitividade do setor nos próximos anos. O material foi construído a partir de 21 entrevistas realizadas com profissionais da mineração, representantes da cadeia de fornecedores e especialistas do ambiente institucional em seis países da América Latina: Brasil, Chile, Argentina, Peru, Equador e México.

Mais do que produzir um diagnóstico setorial, a proposta do estudo foi compreender como as mineradoras estão lidando com uma equação cada vez mais complexa: produzir mais minerais para atender à transição energética global, reduzindo simultaneamente emissões, riscos operacionais e vulnerabilidades energéticas.

“Existe hoje uma demanda global por minerais essenciais para a transição energética. O que observamos é que essa demanda impulsiona o crescimento do setor, mas também aumenta a pressão para reduzir emissões e tornar as operações mais eficientes. O e-book nasce justamente dessa equação”, explicou Fernando Tanaka, diretor de Vendas de Mineração da Aggreko durante o lançamento.

Uma das principais conclusões do levantamento é que os obstáculos à expansão da mineração já não podem ser analisados apenas sob a ótica dos recursos minerais disponíveis. Segundo os responsáveis pelo estudo, os fatores que mais impactam a competitividade das operações atualmente incluem disponibilidade energética, logística, acesso à água, licenciamento, regulamentação e gestão de riscos territoriais. Em muitos casos, esses elementos exercem influência maior sobre o desempenho dos empreendimentos do que o próprio minério explorado.

Ao longo das entrevistas, surgiu uma percepção recorrente entre os profissionais consultados: o verdadeiro diferencial competitivo da mineração moderna está na infraestrutura que sustenta a operação. “Quando falamos de mineração, muitas vezes pensamos apenas no que está sendo extraído do solo. Mas a competitividade hoje está ligada a tudo o que existe ao redor da mina. Energia, transporte, água, infraestrutura logística e segurança operacional são fatores que determinam a capacidade de uma empresa crescer ou não”, destacou Tanaka.

O estudo mostra que essa realidade se repete em diferentes contextos geográficos. Seja nas operações instaladas em áreas remotas da Amazônia, seja nos projetos localizados em regiões de altitude nos Andes, os desafios relacionados à infraestrutura aparecem como uma constante.

 

A energia no centro da equação

 

Um tema que atravessa todo o e-book é a energia. A publicação sustenta que a energia deixou de ser apenas um insumo operacional para assumir uma condição estratégica dentro das operações minerais. Não se trata apenas de garantir eletricidade para equipamentos e processos produtivos, mas de assegurar continuidade operacional, segurança, descarbonização e capacidade de expansão.

“Hoje, o consumo energético é um dos principais custos da mineração. E, em muitos casos, especialmente em operações remotas, a energia passa a ser um fator crítico para a sobrevivência da própria operação”, observou Tanaka.

A questão torna-se ainda mais sensível em regiões fora do Sistema Interligado Nacional. Na Amazônia, por exemplo, diversas operações dependem de soluções próprias de geração, exigindo planejamento redundante e múltiplas camadas de segurança energética. “Quando uma operação está fora do grid, a energia não pode falhar. Não existe uma segunda alternativa disponível imediatamente. É preciso pensar na fonte principal, mas também em backups, redundâncias e sistemas capazes de garantir a continuidade da produção”, afirmou o executivo.

Segundo o estudo, esse cenário faz com que a infraestrutura energética passe a ser tratada como um ativo estratégico, influenciando diretamente a produtividade, a segurança dos trabalhadores e a capacidade de expansão dos empreendimentos.

O levantamento também identificou um consenso entre os entrevistados sobre a necessidade de avançar rumo a uma matriz energética mais limpa. Nada menos que 66% dos participantes associaram o futuro da mineração à adoção de soluções energéticas mais sustentáveis e eficientes. Ao mesmo tempo, a pesquisa aponta que existe uma distância significativa entre a ambição e a realidade operacional.

“Acho que o que mais chamou atenção foi perceber que existe uma vontade muito grande de acelerar a transição energética, mas nem sempre as condições técnicas e operacionais acompanham esse ritmo”, comentou Debora Lemes Tavares, Head de Sustentabilidade Latam da Aggreko durante a apresentação.

Segundo ela, as empresas enfrentam uma combinação complexa de compromissos regulatórios, exigências de investidores, metas corporativas e desafios operacionais. “As mineradoras precisam atender às regulamentações de diferentes países, cumprir compromissos assumidos com investidores e, ao mesmo tempo, manter operações contínuas e seguras. A questão é encontrar um equilíbrio entre descarbonização e confiabilidade operacional”, afirmou.

Para Debora, essa jornada exige soluções capazes de combinar geração convencional, fontes renováveis, sistemas híbridos e tecnologias de armazenamento de energia.

Outro aspecto destacado pelo e-book é a crescente relação entre energia e segurança operacional. O tema aparece de forma particularmente relevante nas operações subterrâneas, onde sistemas de ventilação e climatização deixaram de representar apenas conforto para se tornarem elementos críticos para a segurança dos trabalhadores.

Tanaka explicou que o aprofundamento das minas torna o controle térmico uma necessidade operacional. “A cada 100 metros de profundidade a temperatura aumenta cerca de um grau centígrado. Em muitas minas subterrâneas, a refrigeração já não é uma questão de conforto, mas de segurança, porque sem energia não existe refrigeração, impactando diretamente na permanência dos trabalhadores e na continuidade das atividades”, afirmou.

Segundo ele, a crescente profundidade das operações faz com que sistemas energéticos robustos e redundantes se tornem indispensáveis para garantir a integridade das equipes. “Quando falamos em climatização subterrânea, estamos falando essencialmente de segurança operacional. Hoje essa é uma das prioridades das empresas que atuam nesse tipo de ambiente”, acrescentou.

 

Desafios comuns, soluções compartilhadas

 

Um dos resultados mais interessantes do estudo foi constatar que, apesar das diferenças regulatórias, climáticas e geográficas existentes entre os países analisados, muitos dos desafios enfrentados pelas mineradoras são semelhantes.

Os entrevistados apontaram que operações localizadas em contextos completamente distintos acabam lidando com obstáculos parecidos relacionados à infraestrutura, energia e logística. Essa percepção levou os autores do e-book a defenderem que as soluções desenvolvidas em um país podem servir de referência para outras regiões da América Latina.

“É curioso perceber que uma empresa instalada em Minas Gerais pode enfrentar desafios muito semelhantes aos de uma operação localizada na Cordilheira dos Andes. Os contextos são diferentes, mas os gargalos estruturais acabam convergindo”, observou Tanaka.

A mensagem final deixada ao setor pela publicação é que a próxima etapa da mineração latino-americana não será definida apenas pela disponibilidade de recursos minerais, capacidade de garantir energia confiável, infraestrutura resiliente e operações preparadas para responder às crescentes exigências de produtividade, sustentabilidade e segurança. (Mara Fornari)