O mundo precisará de muito mais cobre do que consegue produzir
A capital peruana sediou, no 27º Congresso Mundial de Mineração (WMC 2026), um importante e denso debate sobre o futuro do cobre — metal que, da fiação de data centers à eletrificação do transporte, tornou-se protagonista da transição energética global. O painel, denominado “Da urgência para a ação”, reuniu quatro vozes com perspectivas complementares: Eve Hanson, Senior Vice-Presidente de Pesquisa e Inovação da Energy Impact Partners; Inge Hofkens, COO da Multimetals Recycling da Aurubis; Marna Cloete, CEO da Ivanhoe Mines; e Ivan Arriagada, Presidente Executivo e CEO da Antofagasta Plc. O resultado foi um diagnóstico coletivo que oscilou entre o otimismo cauteloso e o alerta inequívoco: o mundo precisará de mais cobre do que consegue produzir, e o ritmo das soluções ainda não acompanha o ritmo da demanda.
O Superciclo do Elétron
A abertura do debate coube a Eve Hanson, que apresentou o conceito central de sua tese de investimento: o chamado "superciclo do elétron". A expressão traduz um fenômeno que vai além do ciclo clássico de commodities — trata-se de uma transformação estrutural na demanda por energia e, consequentemente, por cobre.
"Estamos começando a ver, por exemplo, que as concessionárias de energia não conseguem acompanhar o ritmo de crescimento, que há taxas de conexão de 5 a 7 anos para que novos data centers ou instalações industriais sejam conectados à rede, que há tempos de espera de 3 a 5 anos para transformadores e tempos de espera de vários anos para turbinas", disse Hanson. "E assim, esses diferentes operadores estão se desconectando da rede e exigindo cada vez mais cobre para que isso aconteça."
Os números que ela apresentou estabeleceram o tom para toda a discussão: o crescimento geral da demanda por cobre deve ser de cerca de 50% entre 2025 e 2040. Para uma commodity cujo mercado anual gira em torno de 28 milhões de toneladas, trata-se de um salto sem precedentes em velocidade. E o problema, como o painel deixou claro repetidamente, não está no lado da demanda — está na capacidade de resposta da oferta.
A Aritmética Impossível da Oferta
Inge Hofkens, da Aurubis, foi direta ao traduzir a escassez em números concretos. Segundo ela, até 2035 serão necessárias 6 milhões de toneladas adicionais de cobre refinado — e essa estimativa já pressupõe que toda a produção atual seja mantida de forma segura e contínua, sem interrupções ou reduções.
"Definitivamente não podemos suprir essa necessidade apenas com a mineração a céu aberto, como costumamos dizer", afirmou Hofkens. "Cerca de 5 milhões das 28 milhões de toneladas atuais vêm da reciclagem, e se quisermos preencher a lacuna dessas 6 milhões de toneladas até 2035, também precisaríamos de cerca de 2,5 milhões de toneladas provenientes de cobre reciclado."
A conta, se verificada, implica que até 2035 aproximadamente 25% de todo o cobre refinado do mundo teria de provir de fontes secundárias — um patamar jamais atingido. E a conclusão de Hofkens foi taxativa: "Hoje não podemos mais falar sobre reciclagem apenas como um tópico de sustentabilidade, mas a reciclagem realmente se tornou um tópico estratégico de fornecimento."
A mudança de registro — de agenda ambiental para agenda de segurança de suprimentos — é, talvez, a virada conceitual mais significativa do debate. Ela reposiciona a reciclagem não como virtude, mas como necessidade industrial.
Reciclagem: A Vantagem do Tempo
Se os projetos de mineração levam entre 12 e 15 anos da exploração até a primeira produção, a reciclagem opera em outra escala temporal. Hofkens destacou que soluções no setor de reciclagem podem ser avaliadas e colocadas em operação em 3 a 5 anos — um diferencial competitivo relevante diante da urgência da lacuna de oferta.
A Aurubis, conhecida no mercado como fundição customizada de concentrados, já processa 1,1 milhão de toneladas de materiais reciclados por ano, provenientes de diversas partes do mundo, e atingiu 45% de seu conteúdo de cobre via reciclagem — o que, segundo Hofkens, a torna a maior recicladora de resíduos do mundo na categoria. A empresa investiu 1,5 bilhão de dólares nos últimos 19 anos, majoritariamente em atividades de reciclagem, e inaugurou no ano passado uma nova planta no condado de Richmond, no estado da Geórgia, nos Estados Unidos, que já se aproxima da segunda fase operacional.
O gargalo, no entanto, não está na capacidade de fundição. "A demanda é muito grande. Mas precisamos que os materiais cheguem até nós para serem reciclados", disse Hofkens. O problema central está na coleta, na recuperação e na infraestrutura de pré-processamento. A executiva citou o Brasil como exemplo ambíguo: referência mundial na reciclagem de latas de alumínio, com taxa de recuperação de 97%, mas muito atrasado na reciclagem de resíduos eletrônicos. "Precisamos aprender a trazer esses bons exemplos de coleta de latas de alumínio também para os resíduos eletrônicos, para que esses materiais não acabem em aterros sanitários."
Hofkens também apontou um problema geopolítico na cadeia de reciclagem: na África Ocidental, grande volume de material eletrônico descartado segue em direção à Ásia, sem ser reintegrado à cadeia de valor local. "Quando queremos equilibrar um pouco, que os recursos sejam usados de uma forma que também os traga de volta para a cadeia de valor local, precisamos garantir que esses materiais permaneçam onde são produzidos."
Greenfield: Risco, Geologia e Paciência
A discussão sobre novas minas coube especialmente a Marna Cloete, que trouxe a experiência da Ivanhoe Mines — empresa que encontrou na República Democrática do Congo um dos mais expressivos depósitos de cobre da última década.
A CEO não poupou palavras ao descrever os obstáculos sistêmicos ao desenvolvimento de projetos greenfield. "Antigamente, você podia ir à Bolsa de Valores de Toronto e levantar dinheiro com uma licença de exploração, com algum potencial geológico próximo a uma mina existente. Esses tempos já passaram. As pessoas querem ver resultados reais, e isso exige estudos de viabilidade bancáveis."
Cloete resumiu a trajetória da Ivanhoe com ironia precisa: "Nos tornamos um sucesso da noite para o dia depois de 30 anos de trabalho árduo." A afirmação captura a desconexão entre os horizontes de tempo da geologia e os critérios de curto prazo de boa parte dos investidores financeiros.
Ela também fez uma distinção que merece atenção: enquanto ativos de primeira linha — aqueles com geologia excepcional e margens elevadas — atraem fila de investidores, os ativos de segundo nível, marginais mas necessários para compor a oferta futura, enfrentam dificuldades persistentes de financiamento e apoio. "São realmente os ativos de nível 2, que são marginais, mas ainda assim contribuirão para a oferta que tanto precisamos, que têm dificuldade em ser desenvolvidos porque é difícil obter financiamento, é difícil obter apoio."
A solução, para Cloete, passa por uma revisão coletiva dos parâmetros de risco jurisdicional. "Precisamos, coletivamente, mudar os parâmetros com os quais nos sentimos confortáveis. Você não vai encontrar projetos de mineração no mesmo lugar — se todos olharem para o mesmo local, um ou dois projetos serão encontrados. Você precisa seguir a geologia. Você precisa ir para as áreas que não foram exploradas no passado."
A CEO também ressaltou a dimensão humana dos projetos em territórios inexplorados: "Você não pode executar com sucesso um projeto greenfield trazendo especialistas de todo o mundo para dizer às pessoas como fazer as coisas. Você precisa educar as pessoas no local, precisa envolvê-las desde o início e precisa construir uma força de trabalho local."
Brownfield e a vantagem andina
Ivan Arriagada, da Antofagasta, apresentou uma perspectiva complementar à de Cloete: enquanto o mundo busca novas fronteiras geológicas, Chile e Peru têm diante de si uma oportunidade de expansão a partir de bases produtivas já consolidadas.
"Estamos em um lugar que tem uma longa tradição de mineração com fortes estruturas institucionais econômicas e de mineração, que possuem infraestrutura pública na forma de estradas, portos, que têm financiamento disponível", disse Arriagada. Juntos, Chile e Peru respondem por quase 40% da produção global de cobre — base que, segundo ele, pode ser ampliada por meio de expansões brownfield com menos risco e prazos mais curtos.
A Antofagasta comprometeu-se publicamente com um aumento de 30% na produção até 2030, por meio de expansões de capacidade de moagem, ampliação do fornecimento de água e adoção de novas tecnologias em suas operações no Chile.
Arriagada também destacou o papel da confiança comunitária como ativo estratégico: "Se você já está operando, existe a possibilidade de continuar interagindo com as comunidades. A confiança dessas comunidades é fundamental hoje para continuar crescendo." E lembrou que, com a elevação dos preços do cobre, a base de recursos economicamente viável cresce — tornando acessíveis reservas que antes eram marginais.
O CEO, no entanto, não escondeu a frustração com o ritmo dos processos regulatórios: "Os prazos ainda são muito longos, e acho que temos uma tremenda oportunidade de trabalhar em colaboração entre governos e empresas privadas para responder a esse desafio."
Inovação: Urgente, mas Difícil de Testar
Um dos momentos mais honestos do debate veio quando Marna Cloete admitiu abertamente que a mineração é provavelmente "a indústria mais tradicional que existe" — não por falta de interesse em inovar, mas porque a estrutura de financiamento de grandes projetos penaliza a experimentação.
"Quando você levanta bilhões de dólares para construir projetos de grande escala, ninguém está disposto a investir em novas tecnologias. Então, você opta por tecnologias testadas e comprovadas", disse a CEO. "A única maneira de fazer com que a indústria de mineração adote novas tecnologias é testá-las em escala real."
Eve Hanson, do lado do capital de risco, confirmou a percepção e adicionou a perspectiva de quem financia a inovação: "Muitas dessas startups não sabem como escalar a tecnologia ou como realmente construir uma inteligência artificial. Elas não entendem esses horizontes de tempo de 15 anos, a intensidade de capital, todas as partes interessadas que você precisa trazer para a mesa."
A executiva citou investimentos da Energy Impact Partners em duas empresas como exemplos concretos da aposta em inovação aplicada ao cobre: a Sable, focada em destravar sulfetos de cobre por meio de lixiviação oxidativa, com planta de demonstração em operação; e a Citrix Materials, dedicada à reciclagem. Hanson também mapeou as frentes de inovação mais ativas no setor: inteligência artificial para exploração subterrânea, novas abordagens de lixiviação para sulfetos primários e secundários, e robótica e automação — incluindo frotas autônomas de caminhões.
"A vida útil típica de um fundo de capital de risco é de 8 anos. E, para nós, o horizonte de tempo de 15 anos é muito longo. Portanto, precisamos ser capazes de investir nas tecnologias e ver um caminho mais rápido para a receita para que possamos ter convicção e fazer um investimento", explicou Hanson.
A solução proposta pela executiva é o co-investimento com parceiros corporativos: "Realmente acreditamos em aproximar empresas e startups e buscamos co-investir com esses parceiros corporativos, porque é assim que você realmente consegue que essas tecnologias escalem mais rapidamente."
Cobre Responsável: Quem Paga o Prêmio?
Um tema transversal ao debate foi a sustentabilidade das operações e sua valoração pelo mercado. Ivan Arriagada destacou os esforços da Antofagasta nessa direção — 65% da água utilizada já vem do mar ou é reciclada, percentual que chegará a 90% em breve; a empresa migrou para energia renovável e recebeu credenciamento pelo Copper Mark, selo de revisão independente de práticas.
Mas o CEO levantou uma questão que o mercado ainda não resolveu: se há cobre produzido de forma responsável e cobre produzido sem os mesmos padrões, por que o preço é o mesmo para os dois? "Os usuários finais querem cobre de origem responsável, e nem todo cobre é. Portanto, nos casos em que isso acontece, eu desafiaria os usuários finais a pensarem em como podemos diferenciar isso para que realmente tenhamos uma escolha, o que significa que haja um retorno diferente entre o cobre de origem responsável e o de outra forma."
Inge Hofkens reforçou a lógica sistêmica por trás da discussão, propondo uma mudança de mentalidade em toda a cadeia: "Em toda a cadeia de valor, pensemos de forma circular. Não chamo isso de compartilhamento de lucros, mas de compartilhamento de valor, porque cada ativo existente hoje é necessário para levar o metal até a demanda."
Análise: O Relógio Corre Contra a Indústria
O debate no WMC 2026 revelou uma indústria que conhece seus problemas com clareza crescente, mas ainda luta para sincronizar soluções de velocidades muito diferentes. A reciclagem pode responder mais rapidamente, mas depende de infraestrutura de coleta e políticas públicas que ainda não existem na escala necessária. A inovação tecnológica avança, mas encontra resistência estrutural no modelo de financiamento de grandes projetos. As expansões brownfield são mais rápidas e seguras, mas têm limites físicos. E os projetos greenfield — os únicos capazes de adicionar volumes verdadeiramente novos à oferta — operam em horizontes de duas ou três décadas, muito além do que os mercados de capital convencionais estão dispostos a esperar.
A lacuna projetada de 4 a 6 milhões de toneladas até 2035 não será preenchida por uma única alavanca. Ela exigirá, simultaneamente, novos projetos em jurisdições de maior risco, expansões aceleradas em bases existentes, saltos tecnológicos no processamento e uma reciclagem que deixe de ser narrativa para se tornar infraestrutura. E, acima de tudo, exigirá que governos, financiadores e empresas de mineração consigam operar, pela primeira vez, na mesma velocidade — algo que, por enquanto, ainda parece ser o maior desafio de todos. (Por Francisco Alves, de Lima-Peru)