ADL Mineração realiza primeira exportação privada de monazita em décadas
A ADL Mineração, empresa privada 100% brasileira voltada ao segmento de minerais críticos, realizou sua primeira exportação de monazita para o Canadá — um embarque que marca a retomada da comercialização privada desse tipo de material no país após um longo intervalo. O mineral, rico em elementos de terras raras como cério, lantânio e neodímio, além de tório, é peça-chave nas cadeias produtivas de tecnologias estratégicas, da fabricação de ímãs permanentes de alta potência para veículos elétricos e turbinas eólicas a componentes eletrônicos, equipamentos de defesa e aplicações nucleares.
"A retomada da produção e, sobretudo, da exportação de monazita representa um marco histórico para o setor mineral brasileiro", afirma Adelina Lee, CEO da ADL Mineração. O último registro de exportação do mineral havia ocorrido há sete anos, conduzido pela Indústrias Nucleares do Brasil (INB), estatal vinculada ao governo federal.
A expectativa da ADL é exportar entre 500 e 1.000 toneladas de monazita até o final de 2026, com destino a outros mercados além do Canadá, como Estados Unidos e China. Em um horizonte de dois anos, a empresa projeta alcançar cerca de 3 mil toneladas exportadas.
O modelo de cessão onerosa com a INB
A operação da ADL só foi possível graças a um arranjo contratual inédito firmado com a INB em 2024. Por meio de uma oferta pública, a ADL venceu a disputa e assinou um contrato de cessão onerosa de direito de uso, por 30 anos, da Unidade em Descomissionamento de Buena (UDB), localizada em São Francisco de Itabapoana, no norte fluminense.
Na prática, a cessão onerosa transferiu à ADL a operação da usina de beneficiamento e das áreas associadas, permitindo que a empresa processe minerais extraídos de jazidas sob sua própria titularidade. A ADL não adquiriu a propriedade do ativo, que segue pertencendo à INB, mas obteve o direito de uso produtivo da infraestrutura.
Em contrapartida, a INB — que antes arcava com custos fixos de manutenção da unidade na ordem de R$ 1,1 milhão por mês — passou a receber uma receita composta por três elementos: um pagamento fixo mensal de R$ 100 mil, royalties calculados sobre o faturamento da operação e um percentual adicional destinado a um Fundo de Descomissionamento da unidade. A estimativa é que o contrato gere para a estatal uma economia de R$ 390 milhões ao longo dos 30 anos de vigência, além de transformar o que era um custo em fonte de receita. O modelo é o primeiro do tipo adotado pela INB e pode servir como referência para outros ativos da estatal.
O monopólio estatal e a questão nuclear
A presença da INB nesse mercado é reflexo do arcabouço legal brasileiro: a Constituição Federal estabelece que a pesquisa, a lavra e o aproveitamento de minerais nucleares são monopólio da União. Como a monazita contém cerca de 6% de tório e 0,3% de urânio, sua exploração sempre ficou sob o guarda-chuva da estatal.
Esse monopólio tem raízes na Guerra Fria. Em 1960, o governo estatizou as operações privadas de extração de monazita no litoral — empresas como a Orquima e a Mibra foram incorporadas ao aparato que se transformaria na INB. A separação dos elementos radioativos passou a ser responsabilidade exclusiva da estatal, que entregava o urânio e o tório à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
Na Unidade de Buena, a INB operava o beneficiamento das areias, separando ilmenita, zirconita, rutilo e monazita. Porém, a partir de 2010, a estatal suspendeu a lavra e a produção se limitou ao processamento de estoques remanescentes. A cessão onerosa para a ADL representa a fórmula encontrada para viabilizar a retomada: a empresa privada opera a infraestrutura e processa minerais de suas próprias jazidas, enquanto a INB mantém a titularidade do ativo e o controle sobre os materiais nucleares.
"Esta é a primeira vez, após décadas, que uma empresa privada brasileira realiza esse movimento, o que reforça o potencial do país no mercado global de terras raras", diz Lee. Segundo a executiva, o amadurecimento do ambiente regulatório foi determinante para viabilizar a operação.
A areia monazítica: do litoral brasileiro ao mundo
A monazita brasileira tem uma história que remonta ao século XIX. O potencial das areias monazíticas do litoral foi identificado na década de 1880, quando o engenheiro americano John Gordon notou a coloração diferenciada das areias nas praias do sul da Bahia, na região de Prado e Cumuruxatiba. Análises confirmaram a presença de monazita rica em tório, e as areias passaram a abastecer a indústria europeia de iluminação a gás — o sistema do austríaco Carl Auer utilizava óxido de tório para produzir a chama incandescente das luminárias públicas. A exploração se estendeu rapidamente do sul da Bahia ao litoral do Espírito Santo e do Rio de Janeiro.
A areia monazítica é composta por minerais pesados como ilmenita, magnetita, monazita, zircão, granada e rutilo, com concentração que varia de zero a mais de 60% dependendo do local. O ponto mais emblemático dessas ocorrências é Guarapari (ES), conhecida como "Cidade Saúde" desde a década de 1930 pela fama terapêutica de suas praias da Areia Preta e de Meaípe. Pesquisas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) apresentaram evidências de que a radiação natural dessas areias, baseada no tório, não oferece riscos à saúde e pode ter efeitos benéficos.
A história das areias monazíticas, porém, também carrega um capítulo sombrio. Entre as décadas de 1930 e 1950, grandes quantidades foram exportadas clandestinamente — sobretudo pela empresa Mibra, de Boris Davidovitch — para abastecer o programa nuclear americano. Estima-se que mais de 200 mil toneladas de areia foram retiradas do litoral brasileiro ao longo de cinco décadas. O escândalo resultou em uma CPI da Energia Atômica e foi um dos fatores que levaram à estatização do setor na década de 1960.
Um patrimônio estratégico subutilizado
O Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, estimada em 14 milhões de toneladas (cerca de 15% do total global), atrás apenas da China (44 milhões de toneladas). No entanto, essa riqueza nunca se converteu em protagonismo produtivo — enquanto a China chegou a controlar mais de 90% da produção mundial, o Brasil permaneceu como ator marginal. Além da ADL, o único outro produtor ativo no país é a Serra Verde, que opera em Goiás com argilas iônicas, mas sem realizar a separação dos elementos individuais.
Além da monazita, a empresa atua na produção de ilmenita, zirconita e rutilo — os mesmos minerais que a Unidade de Buena já processava sob a operação da INB.