Viridis e Solvay firmam carta de intenções para processar terras raras do Colossus no Brasil
A australiana Viridis Mining and Minerals assinou uma carta de intenções (LoI), de caráter não vinculante, com a Solvay S.A., líder mundial em separação de terras raras, para o fornecimento de carbonato misto de terras raras (MREC) a partir do projeto Colossus, seu ativo carro-chefe, localizado no complexo alcalino de Poços de Caldas, em Minas Gerais.
O documento vai além de um pré-contrato de venda: estabelece os princípios técnicos e comerciais de uma parceria estratégica que combina a compra garantida da produção (offtake) com um pacote tecnológico. A meta é maximizar a industrialização das terras raras dentro do Brasil, aplicando a tecnologia de processamento e a expertise de separação da Solvay à matéria-prima de alto teor extraída do Colossus.
Para a Viridis, o entendimento cria um caminho estruturado para acelerar o desenvolvimento do projeto e viabilizar a produção comercial de MREC em solo brasileiro até 2028.
Um dos maiores depósitos de argila iônica fora da China
O Colossus está assentado sobre um recurso de 493 milhões de toneladas a 2.508 ppm de óxidos totais de terras raras (TREO), em um depósito do tipo argila de adsorção iônica (IAC) — categoria de mineralização responsável pela maior parte da oferta global de terras raras pesadas e historicamente dominada pela China. A reserva inaugural, de 200,6 milhões de toneladas, sustenta uma vida útil potencial superior a 40 anos.
A geologia favorece o projeto. O complexo alcalino de Poços de Caldas, uma antiga estrutura vulcânica, combinou intrusões ígneas alcalinas com intemperismo tropical intenso, formando espessos horizontes de argila enriquecidos justamente nos elementos que sustentam os ímãs permanentes — neodímio, praseodímio, disprósio e térbio —, insumos críticos para veículos elétricos, geradores eólicos e aplicações de defesa.
A região agrega ainda um diferencial logístico e regulatório raro para projetos de terras raras: tradição mineral consolidada (nióbio, urânio e bauxita), mão de obra técnica experiente, acesso por estradas pavimentadas e energia da rede. A área licenciada da Viridis no entorno do complexo alcalino supera 200 km².
Da lavra ao carbonato: o papel da tecnologia da Solvay
O MREC é um produto intermediário que reúne, em forma de carbonato, vários elementos de terras raras obtidos por precipitação a partir de soluções de lixiviação. A Viridis já validou essa rota: sua planta de demonstração em Poços de Caldas — o Centro de Pesquisa e Tratamento de Terras Raras —, com capacidade de processar 100 kg de minério por hora, produziu os primeiros lotes de MREC a partir do minério de argila iônica, comprovando o fluxograma hidrometalúrgico antes do salto para a escala comercial.
É a partir desse carbonato que entra a expertise da Solvay. A separação dos óxidos individuais de terras raras é a etapa mais complexa e estratégica da cadeia, justamente onde o Ocidente tem maior dependência. Pela carta de intenções, a companhia química levará ao Colossus tecnologia de processamento e conhecimento de separação reconhecidos mundialmente, agregando valor ao produto antes da metalização e da fabricação de ímãs.
A Solvay também aporta experiência industrial local incomum: fabrica no Brasil há mais de 100 anos, no complexo de Paulínia (SP). "Ao firmar parceria com a Viridis, garantiríamos outra fonte confiável de matérias-primas", afirmou An Nuyttens, presidente da unidade Special Chem da Solvay, acrescentando que o acordo permitiria ampliar a capacidade de processamento e atender à demanda por terras raras de alta pureza processadas de forma sustentável. A companhia reiterou a meta de suprir 30% do mercado europeu de terras raras leves e pesadas de grau magnético até 2030.
Aposta na verticalização dentro do Brasil
O acordo é o desfecho de mais de 18 meses de tratativas. Após extenso processo de due diligence, a Solvay escolheu a Viridis como parceira estratégica de fornecimento — leitura que a mineradora classifica como validação externa da qualidade e da relevância do Colossus.
"Esta parceria está fortemente alinhada à nossa estratégia de maximizar a capacidade de processamento downstream no Brasil, combinando a matéria-prima de alta qualidade do Colossus à expertise de separação da Solvay", afirmou Rafael Moreno, CEO e diretor-presidente da Viridis.
Somada às relações já existentes da Solvay com grupos de metalização e fabricação de ímãs permanentes, a aproximação representa o alinhamento de toda a cadeia de valor — fornecimento de minério, separação, metalização e produção de ímãs — em uma estrutura voltada à diversificação e à segurança de fornecimento, fora da concentração chinesa que hoje responde por cerca de 60% da mineração global de terras raras e pela maior parte da capacidade mundial de processamento.
No campo regulatório, a parceria caminha em paralelo ao protocolo do pedido de Licença de Instalação — etapa que autoriza o início da construção e da implantação do empreendimento no rito de licenciamento ambiental brasileiro. Em conjunto com a primeira produção de MREC na planta de demonstração, esses avanços sustentam a meta da companhia de tomar a Decisão Final de Investimento no segundo semestre de 2026, com primeira produção comercial prevista para 2028.