Startup brasileira quer transformar pedreiras em protagonistas do clima

23/07/2026
A Terradot une geologia, agronegócio e ciência do clima para capturar carbono da atmosfera usando pó de rocha — e enxerga no setor mineral brasileiro um aliado estratégico ainda pouco consciente do próprio potencial

 

O planeta já sabe como remover carbono da atmosfera. Faz isso há milhões de anos, em silêncio, por meio do intemperismo de rochas silicatadas — processo pelo qual minerais se dissolvem em contato com água e solo, liberando cátions que capturam dióxido de carbono e o transportam, na forma de bicarbonato, até os oceanos. O desafio que a startup brasileira Terradot se propôs a resolver é aparentemente simples de enunciar e extraordinariamente complexo de executar: comprimir esse ciclo geológico de milhões de anos para a escala de uma safra agrícola — e provar, com rigor científico, que a captura aconteceu. 

A empresa tem quatro anos de existência, opera comercialmente em São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná, mantém projetos de pesquisa e desenvolvimento no Maranhão e no Rio Grande do Sul e, recentemente, expandiu sua atuação para os Estados Unidos com a aquisição de uma concorrente americana. Em entrevista exclusiva à Brasil Mineral, a equipe da Terradot apresentou o modelo de negócio, a arquitetura científica por trás da tecnologia e, sobretudo, o papel central que o setor de mineração ocupa nessa equação. 

 

O problema que nenhuma árvore resolve 

O ponto de partida da Terradot é uma constatação que incomoda boa parte do mercado de carbono: a maioria das soluções de remoção disponíveis hoje não é permanente. Reflorestamento, por exemplo, captura carbono enquanto a floresta existe — mas o estoque pode ser revertido por incêndio, seca ou mudança de uso do solo. 

"Se a gente está colocando uma tonelada de CO₂ no ar, isso é um passivo permanente, então a gente vai precisar de uma solução que consegue capturar esse carbono de forma permanente", afirmou Julia Sekula, CEO da Terradot. "Infelizmente muitas das soluções, que são muito boas, que a gente mais conhece no Brasil, por exemplo, reflorestamento, trazem uma série de benefícios em termos de biodiversidade, mas não capturam o carbono de forma permanente. Elas não resolvem justamente essa equação: se o nosso passivo é permanente, o nosso ativo tem que ser permanente." 

Foi buscando uma resposta para essa equação que a empresa chegou ao intemperismo acelerado de rocha — ou intemperismo avançado, como também é chamado na literatura científica. A natureza, argumenta Sekula, já oferece o modelo. A Terradot o operacionaliza. 

 

A ciência por trás do pó 

Laísa de Assis Batista, geóloga e responsável pela coordenação científica da empresa, explica que o processo se apoia em um mecanismo geoquímico já bem estabelecido. As rochas silicatadas — especialmente basaltos — são ricas em minerais como olivinas, feldspatos e piroxênios. Quando moídas em granulometria fina e aplicadas ao solo agrícola, essas rochas interagem com a água da chuva e com o sistema hidrológico local, dissolvendo-se e liberando cátions alcalinos. 

"Estamos interessados nos elementos alcalinos: sódio, magnésio e cálcio principalmente", explicou Laísa. "Cada um desses óxidos, no que é solubilizado na solução ali, no ambiente do solo, vai ter o potencial de capturar duas moléculas de carbono para cada molécula de óxido que liberamos do silicato." 

O mecanismo de permanência está no destino desse carbono capturado. O CO₂ atmosférico é convertido em bicarbonato, que migra pelo sistema hidrológico até os oceanos, onde fica sequestrado — seja dissolvido na água do mar, seja precipitado na forma de conchas. É esse caminho que confere ao processo a característica de captura permanente, diferenciando-o de outras metodologias. 

A analogia com práticas agrícolas já existentes é intencional e estratégica. "É muito semelhante com o que acontece hoje, por exemplo, com o espalhamento de calcário, com o espalhamento de fertilizante no campo", comparou Laísa. "Você tem aquela área, aquele solo, quer melhorar a saúde do solo, e então aplica aquele material para interagir ali, fazer o melhoramento do solo, aumentar a capacidade de nutrientes." 

Julia Sekula

Por que o Brasil é um território privilegiado 

A combinação de fatores que torna o Brasil especialmente adequado para o intemperismo acelerado não é coincidência geológica — é uma vantagem estrutural que a Terradot identificou como central em sua estratégia. 

O primeiro elemento é geológico. A Bacia do Paraná abriga os derrames basálticos que formam o terceiro maior depósito basáltico do mundo. "Se a gente for comparar com os outros dois: o primeiro são as armadilhas na Sibéria, que é um lugar super frio, então não é tão adequado para o favorecimento do processo de intemperismo; e na Índia, que são as Deccan Traps, que já é um basalto mais alterado", contextualizou Laísa. O basalto da Bacia do Paraná, rico em cálcio e magnésio, está inserido em uma das maiores áreas agrícolas do planeta — o que elimina o problema logístico de distância entre fonte e ponto de aplicação. 

O segundo fator é industrial e regulatório. O Brasil possui uma cultura consolidada de remineralização de solos, com produção de pó de rocha regulamentada pelo Ministério da Agricultura desde a década de 1980. A instrução normativa dos remineralizadores estabelece granulometria abaixo de dois milímetros, exatamente a faixa mais favorável ao processo de intemperismo acelerado. "Existe uma produção em escala desse pó de rocha fino, e isso é uma característica nacional", ressaltou a geóloga. 

 

O modelo de negócio: quem paga, quem recebe e quem lucra 

A arquitetura comercial da Terradot envolve três elos principais: as pedreiras e mineradoras fornecedoras de rocha, os produtores rurais que recebem o material aplicado em suas áreas, e as grandes empresas compradoras de créditos de carbono — hoje, principalmente corporações de tecnologia como Microsoft e Google. 

O produtor rural ocupa posição singular nessa cadeia: ele não paga pelo insumo. Ao contrário, recebe gratuitamente o pó de rocha, que atua como corretivo de solo, reduzindo a acidez de maneira análoga ao calcário. Em contrapartida, cede à Terradot os direitos de amostragem e monitoramento necessários para a geração e certificação dos créditos de carbono. 

"O produtor não paga para receber essa rocha", confirmou Julia Sekula. "A gente faz a aplicação do pó de rocha em sua área, em troca ele dá para nós os direitos de fazer toda a amostragem que a gente precisa para então poder gerar o crédito de carbono e vender esse crédito para as grandes compradoras. Os contratos que temos com as empresas de tecnologia nos ajudam a financiar todo esse processo." 

Sekula acrescentou que a economia gerada para o produtor pode representar cerca de 10% do custo de produção — número relevante em um setor que atravessa anos de pressão sobre margens. 

Do lado das mineradoras, a relação é de compra e venda convencional. A Terradot adquire o pó de rocha — historicamente um subproduto sem destinação adequada — e assume os custos de transporte, aplicação e monitoramento. "As pedreiras de basalto têm um core business voltado para a produção de agregados para o mercado de construção civil. Inevitavelmente, essa produção de agregados gera finos", explicou Fabrício Pinheiro, estrategista de mineração da empresa. "No passado, esses finos acabavam sendo um passivo para eles, um material que ficava estocado e não tinha uma destinação." 

 

A mineração como aliada — e ainda desconhecida do tema 

Fabrício Pinheiro tem longa trajetória no setor mineral e é o responsável por mapear e desenvolver as parcerias com pedreiras e mineradoras. Sua leitura sobre o momento atual do setor é direta: há um desconhecimento generalizado sobre o potencial dessa tecnologia dentro da própria indústria. 

"No ano passado estive na Exposibram e é uma ciência que ainda é muito desconhecida dentro da área de mineração", relatou. "Acho que é importante a gente apresentar, trazer esse conhecimento para o setor de mineração, que existe uma possibilidade de ter um viés totalmente diferente do que só ter aquela visão muito ainda de que minerais e rochas não têm só essa pegada industrial, mas também pode ter esse caminho de ação ambiental." 

A Terradot enxerga potencial além das pedreiras de basalto. A empresa avalia o uso de outros subprodutos minerais, como rejeitos de lavra e escórias industriais. "A gente também tem um caminho de estudo e avaliação de outros subprodutos de mineração para também dar essa destinação para o intemperismo acelerado", confirmou Pinheiro. 

 

Como se prova que o carbono foi capturado 

A questão da verificação é o ponto mais sensível de toda a cadeia — e onde reside o diferencial competitivo da Terradot. Sem comprovação robusta, não há crédito de carbono. E sem crédito, não há receita. 

O protocolo de monitoramento desenvolvido pela empresa é essencialmente geoquímico e se estende por até cinco anos após a aplicação. Antes de qualquer intervenção, a equipe realiza uma caracterização completa do baseline: composição do solo, assinatura geoquímica das drenagens e composição detalhada do pó de rocha a ser utilizado. Após a aplicação, amostragens sistemáticas rastreiam a evolução das concentrações de cátions no solo, na água e nas plantas. 

"Eu sei qual é a composição do meu basalto, qual a composição do meu solo naquela área, qual é a composição dos dois misturados e, conforme o intemperismo vai acontecendo, sei que vou ter um empobrecimento nos cátions que estou contando para gerar essa exportação de carbono", detalhou Laísa. "Então é essa mudança de sinal que vou pegando com o tempo e, pelo balanço estequiométrico de massa entre essas diferentes fases, consigo mostrar a remobilização dos cátions e essa captura do dióxido de carbono." 

A amostragem de plantas é componente essencial do protocolo. Parte dos cátions liberados pelo intemperismo é absorvida pela cultura, e essa fração precisa ser descontada do cálculo de captura de carbono para evitar superestimativas. "A gente pega também as amostras de planta, porque precisamos saber quanto desses cátions, quanto dessa geoquímica que colocamos no solo, está sendo incorporado pela planta, para também não superquantificarmos o carbono que estamos capturando", explicou a geóloga. 

Em termos de preferência de área, a empresa favorece solos arenosos levemente ácidos. A porosidade facilita a exportação de bicarbonato para o sistema hidrológico, acelerando a resposta mensurável. Mas o protocolo pode ser adaptado a outras condições. O portfólio atual da Terradot inclui áreas de pastagem, cana-de-açúcar, soja e milho. 

 

A escala potencial: bilhões de toneladas 

Quando a conversa chegou ao potencial de escala da tecnologia no Brasil, os números apresentados são expressivos — e acompanhados dos devidos asteriscos científicos. 

Estudos acadêmicos independentes estimam que o Brasil tem potencial de remover uma gigatonelada de carbono por ano por meio do intemperismo acelerado. Para contextualizar: o País emite aproximadamente 2,4 gigatoneladas de CO₂ equivalente por ano. O processo poderia, em tese, neutralizar quase metade das emissões nacionais. 

Em termos de volume de rocha, Julia Sekula esboçou um cálculo preliminar: "Se você pega essa gigatonelada e pensa só em basalto, para gerar uma tonelada de captura de carbono, você tem que aplicar mais ou menos 4 a 5 toneladas de basalto. São 5 bilhões de toneladas." Rochas com maior concentração de minerais reativos reduzem essa relação — de 1 para 4 para algo próximo de 1 para 2 ou mesmo 1 para 1 —, o que altera significativamente o volume necessário. 

A CEO reconhece que o número bruto da gigatonelada carrega simplificações. "A gente colocaria um asterisco e falaria: esse número provavelmente não é tudo isso, mas dá um indicativo de dimensão", ponderou Sekula. A lógica de distribuição geográfica reforça essa ressalva: com mais de mil pedreiras ativas no Brasil, cada uma delas representando um raio potencial de aplicação, a soma fragmentada pode ser expressiva — mas dificilmente atingirá o limite teórico calculado em escala nacional. 

 

Um mercado em formação — e que vai se tornar regulado 

O mercado comprador dos créditos gerados pelo intemperismo acelerado ainda é predominantemente voluntário. As grandes empresas de tecnologia globais lideram as aquisições, motivadas por metas de descarbonização e por exigências crescentes de seus investidores e reguladores. O valor desses créditos é significativamente superior ao de créditos convencionais, precisamente pela permanência da captura e pelo rigor científico exigido para sua certificação. 

Mas o horizonte regulatório está se redesenhando rapidamente. "A União Europeia saiu com uma definição muito clara de que o mercado de emissões local vai aceitar a remoção permanente de carbono", apontou Sekula. "Então em breve esse mercado também vai ser um mercado regulado em algumas jurisdições." 

Essa perspectiva transforma o intemperismo acelerado de uma solução de nicho voluntário em um instrumento potencial de compliance regulatório — o que tende a ampliar substancialmente a demanda e a base de compradores ao longo da próxima década. 

 

O setor mineral diante de um novo papel 

A Terradot representa, em essência, uma proposta de reposicionamento do setor mineral brasileiro. Pedreiras que hoje enxergam o pó de basalto como um passivo operacional — custo de armazenamento, sem receita — são convidadas a enxergá-lo como a matéria-prima de um mercado emergente e de alto valor agregado. 

Mas o caminho exige investimento. Fabrício Pinheiro destacou que o desenvolvimento de equipamentos com capacidade e escalabilidade adequadas para a produção de finos com granulometria compatível é um dos grandes desafios técnicos do setor. A demanda por pó de rocha fino em volumes industriais, caso a tecnologia se consolide na escala projetada pelos estudos acadêmicos, exigirá adaptações significativas nos processos produtivos das pedreiras — e pode abrir uma nova fronteira de negócios para fabricantes de equipamentos de beneficiamento. 

A mensagem que a Terradot leva ao setor mineral é, no fundo, uma inversão de narrativa: a mineração, frequentemente posicionada como antagonista nas discussões sobre clima, pode se tornar protagonista de uma das soluções mais escaláveis e permanentes de captura de carbono já identificadas pela ciência. O pó que sobra do britador pode ser, literalmente, a resposta que o planeta está procurando. (Exclusivo Brasil Mineral)