O que a nova era da mineração exige dos líderes globais?
O segundo dia do PDAC 2026 Prospectors & Developers Association of Canada) começou com um tom de nostalgia, resiliência e, acima de tudo, um chamado à ação para o futuro da mineração global. Aos 67 anos, Don Lindsay falou com a tranquilidade de quem atravessou múltiplos ciclos de alta e baixa na mineração global — e com a autoridade de quem liderou uma das maiores produtoras canadenses por quase duas décadas. Trajetória que se confunde com a própria história da mineração canadense, uma reflexão sobre o papel da indústria na sociedade moderna.
Lindsay iniciou sua fala resgatando o que chama de "licença para sonhar". Para o executivo, a mineração é movida pela paixão de geólogos que buscam o próximo "elefante" — depósitos minerais de classe mundial. Ele relembrou um episódio marcante de 2005, quando incentivou sua equipe a ter a coragem de exigir o financiamento de seus sonhos. O resultado dessa ousadia foi o projeto Quebrada Blanca II (QB2), que evoluiu de oito furos secretos de sondagem para um recurso de mais de 10 bilhões de toneladas de minério.
A mensagem central foi clara: o futuro da mineração será definido por três vetores — disciplina de capital, inovação tecnológica e colaboração estratégica. Durante sua gestão na Teck, Lindsay enfrentou períodos de volatilidade severa no mercado de commodities e, para ele, a grande diferença entre empresas resilientes e vulneráveis está na governança e na alocação de capital. “Ciclos são inevitáveis. Descontrole financeiro é opcional”, resumiu.
O executivo também detalhou os bastidores das "Guerras do Níquel" entre 2005 e 2006. Ele descreveu a tentativa de criar uma "campeã nacional canadense" através de uma fusão tripla entre Teck, Inco e Falconbridge. O movimento, embora não concretizado devido a resistências internas e à entrada agressiva da brasileira CVRD (hoje Vale), moldou a visão de Lindsay sobre a importância de o Estado apoiar seus campeões domésticos em recursos estratégicos.
E revelou detalhes inéditos sobre como o governo canadense da época aprovou a venda da Inco para a Vale no último minuto, ignorando uma proposta de "acordo amigável" feito no Canadá que estava prestes a ser apresentada.
O que estava em jogo
Em 2006, no auge da chamada “guerra do níquel”, a Inco era alvo de disputas bilionárias. A brasileira CVRD apresentou uma oferta hostil, totalmente em dinheiro, de US$ 86 por ação. Paralelamente, Lindsay articulava uma solução doméstica: uma fusão “amigável”, que criaria um grande campeão canadense no setor de níquel.
Numa articulação política de última hora, o vice-presidente do Bank of Montreal foi até o então ministro da Indústria, Maxime Bernier, para pedir o uso da extensão de 30 dias prevista na legislação de revisão de investimentos estrangeiros (Investment Canada Act). O objetivo era ganhar tempo para formalizar a proposta “made in Canada”, que manteria a Inco sob controle canadense.
Ao mesmo tempo, durante um jantar organizado por Gord Nixon, então CEO do Royal Bank of Canada, Lindsay conseguiu 10 minutos a sós com o então primeiro-ministro Stephen Harper. Ele tentou convencê-lo de que, em setores estratégicos como recursos minerais, outros países costumam apoiar seus campeões nacionais — e que o Canadá deveria fazer o mesmo.
Enquanto Lindsay seguia para o encontro político, recebeu uma ligação de sua assistente com a notícia decisiva: o ministro Maxime Bernier havia aprovado a operação da CVRD.
A transação seria concluída no dia seguinte. Ou seja, o governo canadense havia aprovado a venda para a empresa brasileira antes mesmo de conceder a extensão de prazo solicitada — extensão que permitiria a apresentação formal do acordo amigável canadense. Segundo ele, nem mesmo Scott Hand (CEO da Inco) nem Rick Waugh (CEO do Scotiabank e conselheiro da Inco) esperavam que a aprovação fosse concedida tão rapidamente. Ele afirmou que essa história “nunca foi publicada” na época.
Lindsay sugeriu que esse episódio teve repercussões internas no governo canadense. Anos depois, quando a BHP tentou adquirir a Potash Corporation of Saskatchewan, o governo Harper bloqueou a operação, adotando uma postura mais protecionista. Em sua opinião, a aprovação da venda da Inco à Vale representou uma oportunidade perdida de manter um “campeão nacional” — e teria influenciado a mudança de postura do governo canadense em operações estratégicas subsequentes.
A importância dos minerais estratégicos
Para além das cifras bilionárias, Lindsay enfatizou o valor social dos metais. Como ex-presidente da International Zinc Association, ele destacou o programa "Zinc Saves Kids", que já alcançou 100 milhões de pessoas fornecendo suplementos de zinco para combater a mortalidade infantil por deficiência nutricional.
Ele também ressaltou o papel do cobre na saúde pública, especialmente após a pandemia, devido às suas propriedades antimicrobianas que eliminam 99,9% dos vírus em superfícies em poucas horas. "Imagine se cada maçaneta de porta em cada hospital fosse de cobre", instigou Lindsay, reforçando que a mineração é, essencialmente, uma indústria de saúde e bem-estar.
Lindsay disse ainda que a eletrificação e a descarbonização global criarão uma demanda estrutural por cobre, zinco, níquel e outros minerais críticos. No entanto, alertou que o desafio não é apenas geológico ou tecnológico: “o mundo quer mais minerais, mas também quer menos impacto. A equação agora inclui ESG, diálogo comunitário e credibilidade institucional”.
Como ex-presidente do ICMM, ele reforçou que padrões ambientais e sociais mais rigorosos não são custo adicional — são condição de permanência no mercado.
Tecnologia como diferencial competitivo
Automação, inteligência artificial, análise de dados em tempo real e digital twins foram citados como instrumentos que redefinem eficiência e segurança. Contudo, Lindsay pondera: “Tecnologia não substitui liderança. Ela potencializa culturas organizacionais já maduras.”
Essa visão dialoga diretamente com os debates atuais da engenharia mineral brasileira, especialmente diante da necessidade de ampliar produtividade mantendo padrões socioambientais elevados.
O fim do "caminho fácil"
O cenário atual, no entanto, não é isento de turbulências. Lindsay listou o risco geopolítico fragmentado, a incerteza regulatória e a crescente dificuldade de licenciamento como barreiras críticas. "A maior parte do caminho fácil já se foi. Estamos indo mais fundo, os teores estão caindo e a água está mais escassa", alertou.
Ao encerrar, Don Lindsay celebrou a transição semântica e prática do setor: de "indústria de mineração" para "indústria de minerais críticos". Ele lembrou à audiência que a vida moderna — dos smartphones à inteligência artificial — é fisicamente impossível sem a mineração.
"A nuvem não está no ar; ela está firmemente no chão, feita de metal e muito cobre", brincou ele, instigando os profissionais presentes a educarem a sociedade sobre a origem dos materiais que sustentam o cotidiano. Para Lindsay, o futuro pertence aos resilientes, aos que colaboram e, acima de tudo, aos que mantêm a atitude correta diante das crises.
(Mara Fornari)