Capital aparece em primeiro no ranking de oportunidades e riscos no Brasil
O estudo “Top 10 business risks and opportunities for mining and metals” realizado pela empresa de consultoria e auditoria EY aponta que o capital aparece na liderança do ranking das 10 principais oportunidades e riscos da mineração no Brasil. O aumento dos custos e da produtividade e licença para operar fecham o top 3 apontado pelos entrevistados brasileiros. “O capital para investimentos está mais seletivo e, consequentemente, mais caro”, afirma Afonso Sartorio, líder de Energia e Recursos Naturais da EY.
“O acesso a capital teve prioridade na visão do mercado brasileiro, enquanto a complexidade operacional foi o destaque do ranking global. Embora a geopolítica seja importante na agenda do setor, os focos brasileiro e global mostram que os executivos adotaram postura pragmática, focando em temas ao seu alcance”, pontua Afonso.
Quando questionados sobre onde aportar o capital no Brasil, 34% dos entrevistados responderam em M&As e 36% desenvolvimento brownfield - ou seja, projetos desenvolvidos em áreas com infraestrutura existente, minas em operação ou depósitos já conhecidos, ambos com médias maiores que as globais (25%). Marcelo Andrade, sócio de Estratégia e Transações da EY-Parthenon, explica que “o capital global tem incorporado cada vez mais critérios geopolíticos em suas decisões de alocação, priorizando ativos localizados em jurisdições consideradas ‘friend-shore’ ou geopoliticamente alinhadas. Neste contexto, o Brasil tende a se tornar relativamente mais atrativo, apoiado por fatores estruturais como a presença de reservas de minerais críticos subexplorados, a localização fora de zonas de conflito e uma matriz energética comparativamente mais limpa”.
A geopolítica pode alavancar oportunidades para os minerais críticos, uma vez que o Brasil está fora dos conflitos e aumenta a visibilidade e o papel estratégico das terras raras brasileiras para a economia mundial. O executivo ressalta que é necessária cautela para que o País não se envolva em embates que possam fechar portas com potenciais parceiros, mas alerta que a ausência de um posicionamento claro e estratégico pode levar à perda dessa janela de oportunidade. “É preciso equilíbrio: cautela diplomática, mas também visão estratégica, porque os minerais críticos serão fundamentais para diversas indústrias no futuro”, pontua o analista. Na pesquisa, quando perguntado sobre como mitigar o impacto potencial do aumento das tarifas nas operações e vendas da sua empresa nos próximos 12 meses, 62% dos brasileiros disseram que vão diversificar a cadeia de suprimentos, transferindo a produção ou o fornecimento para regiões sem tarifas e 53% indicaram que vão absorver os custos adicionais internamente por meio de ganhos de eficiência operacional e redução de custos. “A complexidade operacional ficou em primeiro lugar no ranking global e em quinto no Brasil, porém é um ponto extremamente importante para o setor como um todo. A regulação mais exigente e o desgaste dos depósitos minerais trazem desafios novos para o setor”, conta Sartorio.
Atualmente, o setor mineral enfrenta um reflexo de um imediatismo do passado. Afonso ressalta que “os corpos minerais estão onde estão. Por isso, a complexidade está cada vez maior e assim será”. Em anos de desenvolvimento, as mineradoras já extraíram os minerais mais superficiais e, portanto, é necessário desenvolver novas formas de atuar. Com corpos minerais mais profundos, a tecnologia é fundamental para novos negócios, bem como o conhecimento geológico, novos equipamentos e mapeamento das novas instalações. “Inclusive, a agenda ESG é um vetor muito importante a ser considerado pelas mineradoras em cada movimento e operação. Hoje, não há mais nenhum rascunho de projeto que não considere essas temáticas”, sinaliza o executivo. A circularidade, por exemplo, é uma possibilidade que o setor encontrou para mitigar a complexidade operacional e a falta de capital.
A circularidade ainda não é totalmente disseminada, mas é um conceito que o setor mineral já entendeu e que as grandes empresas têm programas focado que, de certa forma, puxam as outras. “Isso vai além de acabar com os gargalos operacionais. É o reaproveitamento do que um dia foi descartado gerando impactos para criação de outros negócios e para os diferentes stakeholders”, conta Afonso. Além disso, 28% dos brasileiros indicam a circularidade como fator ESG a ser analisado pelos investidores do setor de mineração e metais nos próximos 12 meses, com uma média muito maior que o global (16%). “O relacionamento com as comunidades é fundamental. Compartilhar valor com esses stakeholders, desenvolver essas regiões e suas populações são ações alinhadas com as necessidades do Brasil; sem preterir a mitigação dos impactos dos biomas, a descarbonização e agenda climática”, finaliza Sartorio.
A EY realizou o estudo entre junho e julho de 2025, por meio de pesquisa online anônima com líderes seniores dos setores de mineração e metais, de organizações com receita de pelo menos US$ 1 bilhão. No total, a consultoria coletou 500 respostas, sendo 24% de membros do conselho ou executivos de alto escalão (C-suite), 38% líderes de departamentos, unidades de negócios ou grupos de commodities, e 38% presidentes, vice-presidentes ou diretores. O recorte do Brasil corresponde a aproximadamente 10% da base.