BNDES estrutura o caminho para financiar os minerais estratégicos
No cenário de profunda transformação da matriz energética mundial, o Brasil se encontra em uma encruzilhada estratégica. Durante a última edição do Brazilian Mining Day, no PDAC 2026, Flávio Mota, Chefe do Departamento de Indústria de Base e Extrativa do BNDES, apresentou o roteiro detalhado de como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social pretende transformar o potencial geológico brasileiro em uma realidade industrial de baixo carbono. A mensagem central é ambiciosa: o Brasil possui os ativos necessários para ser o fornecedor mais confiável de materiais sustentáveis do planeta.
O BNDES não atua mais apenas como um repassador de crédito tradicional. Segundo Mota, a estratégia atual repousa sobre quatro pilares que visam melhorar a "vida de crédito" das empresas e apoiar o crescimento sustentável. O banco hoje opera com um ecossistema financeiro que inclui: Linhas de Crédito e BNDES FINEM - financiamentos de longo prazo (até 20 anos) para capacidade industrial e infraestrutura; BNDESPAR - participação acionária e fundos de investimento em setores alinhados à estratégia de descarbonização; Garantias e Serviços - ferramentas para mitigar riscos e atrair o investidor privado; e BNDES FUNTEC e Inovação - apoio direto a P&D e digitalização, essencial para a eficiência operacional das mineradoras.
Lançado há cerca de dois anos, o Fundo de Minerais Críticos e Estratégicos já apresenta resultados que dobram as expectativas iniciais. Com aproximadamente US$ 500 milhões indicados em cartas de interesse de parceiros limitados, o fundo conta com o suporte de "âncoras" de peso: a BNDESPAR e a Vale, contribuindo cada uma com até US$ 50 milhões.
O diferencial deste fundo, gerido pelo consórcio Ore Investments, JGP e BB Asset, é o seu foco em empresas de pequeno e médio porte (junior to mid-cap), garantindo que pelo menos 20% do capital seja destinado a projetos ainda em fase de exploração. A lista de minerais-alvo é extensa, cobrindo desde o Lítio e as Terras Raras até o Potássio e Remineralizadores, vitais para a segurança alimentar.
Além da Mina
Talvez o dado mais impressionante apresentado por Mota tenha sido o volume de interesse na chamada pública para a Transformação Mineral. Foram recebidos 124 planos de negócios, somando uma intenção de investimento de US$ 16 bilhões. Desses, 56 projetos foram selecionados, totalizando US$ 8,5 bilhões em investimentos potenciais voltados para o refino, metalurgia e manufatura de componentes como ímãs permanentes e baterias.
"Nosso objetivo é ir além da produção mineral, passar por toda a cadeia de valor", afirmou Mota, destacando casos já em andamento, como sistemas de armazenamento de energia em baterias com empresas nacionais.
A competitividade brasileira não reside apenas na abundância mineral. Mota destacou que o "selo de qualidade" do Brasil advém de uma rede elétrica limpa e integrada, que permite a produção de materiais com baixíssima pegada de carbono. O país detém cerca de um quinto das reservas globais de minerais estratégicos, posicionando-se como uma alternativa viável às cadeias de suprimento atuais.
A Nova Política Industrial Brasileira (NIB) sustenta esse movimento, prevendo o investimento de US$ 95 bilhões na indústria nacional até 2026. O BNDES é o braço executor de mais da metade dessa meta, com a responsabilidade de aplicar US$ 55 bilhões. Em novembro do ano passado, o banco já havia atingido a marca de US$ 51 bilhões, sinalizando que as metas de investimento estão sendo superadas sistematicamente.
Apesar do otimismo, Mota reconhece que o caminho é desafiador. A automação, o desenvolvimento tecnológico e a compreensão de riscos e retornos são barreiras que exigem parcerias internacionais e locais. "O BNDES está completamente aberto a parcerias. Não traremos a solução sozinhos, mas estamos prontos para ser o principal suporte de projetos que adotem as melhores práticas ESG", conclui ele. (Mara Fornari)