Acordo UE-Mercosul: Oportunidades para a mineração brasileira

09/01/2026
Tratado histórico coloca minerais críticos no centro da estratégia de cooperação entre os blocos e abre oportunidades para o setor mineral brasileiro.

 

Os países-membros da União Europeia aprovaram preliminarmente, nesta sexta-feira (9), o acordo comercial com o Mercosul, após mais de 25 anos de negociações e abrindo caminho para a criação da maior zona de livre comércio do mundo. A votação ocorreu no Comitê de Representantes Permanentes (Coreper) e foi aprovada por maioria qualificada, com o apoio de pelo menos 15 dos 27 Estados-membros, representando mais de 65% da população do bloco. Essa decisão autoriza o prosseguimento do processo formal de assinatura do tratado, que ainda depende de ratificação pelo Parlamento Europeu e pelos países do Mercosul para que possa efetivamente entrar em vigor.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, viajará ao Paraguai na próxima segunda-feira (12) para a assinatura simbólica do acordo. O tratado ainda precisará ser ratificado pelo Parlamento Europeu para entrar em vigor.

A aprovação ocorre em um contexto geopolítico decisivo: as tarifas impostas pelos Estados Unidos sob a administração Trump e a necessidade europeia de reduzir a dependência da China para minerais críticos aceleraram a conclusão do acordo. Para a Comissão Europeia, garantir o acesso a minerais estratégicos do Mercosul — como lítio, nióbio, grafite e terras raras — tornou-se uma questão de autonomia estratégica.

Minerais Críticos: Prioridade Estratégica Europeia

A União Europeia identificou o acesso a minerais críticos do Mercosul como um dos pilares centrais do acordo. A negociadora-chefe da UE, Kristina Grutschreiber, declarou que a Europa "precisa desesperadamente" dessas matérias-primas para sua transição energética e autonomia estratégica, especialmente em um contexto de dependência excessiva da China.

Tabela 1 – Minerais Críticos Brasileiros de Interesse para a União Europeia

Mineral Aplicação Principal Posição do Brasil
Lítio Baterias para veículos elétricos e armazenamento de energia 6ª maior reserva mundial; produção em expansão
Nióbio Ligas de aço de alta resistência, supercondutores Líder mundial (90% da produção global)
Grafite Baterias, materiais refratários, eletrodos Reservas significativas; potencial de expansão
Níquel Baterias, aços inoxidáveis, ligas especiais Produção crescente; novas jazidas em exploração
Terras Raras Ímãs permanentes, eletrônicos, energia eólica Grandes reservas; baixa produção atual
Cobre Condutores elétricos, energia renovável Produção moderada; potencial em Carajás
Manganês Baterias, produção de aço Entre os maiores produtores mundiais

Flexibilidades Conquistadas pelo Brasil

Uma das principais conquistas da renegociação de 2023-2024 foi a preservação do direito brasileiro de implementar políticas de agregação de valor no setor mineral. Diferentemente do pré-acordo de 2019, que proibia qualquer imposto de exportação, o novo texto permite ao Brasil aplicar restrições para estimular o processamento local.

Tabela 2 – Comparativo: Acordo 2019 vs. Acordo 2024 para Minerais Críticos

Aspecto Pré-Acordo 2019 Acordo 2024
Imposto de Exportação Proibido Permitido (até 25% para UE)
Restrições à Exportação Não previstas Permitidas para estimular agregação de valor
Política Industrial Limitada Preservada
Tratamento Preferencial Não aplicável UE recebe alíquota menor que outros destinos
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, essa flexibilidade garante ao Brasil o direito de aplicar restrições às exportações de minerais críticos para estimular a agregação de valor no país, uma demanda histórica do setor mineral e da política industrial brasileira.

Tarifas e Acesso ao Mercado Europeu

O acordo estabelece eliminação progressiva de tarifas para produtos minerais, com cronogramas diferenciados conforme o produto. Importante destacar que produtos básicos como minério de ferro, soja e café verde já gozavam de tarifa zero antes do acordo, limitando o impacto direto para essas commodities.

Tabela 3 – Situação Tarifária de Produtos Minerais no Acordo

Produto Tarifa Atual Tarifa Pós-Acordo Prazo de Transição
Minério de Ferro 0% 0% Já isento
Ferro-ligas 2,7% - 7% 0% Até 10 anos
Alumínio e produtos 3% - 10% 0% Até 10 anos
Cobre e produtos 0% - 4,8% 0% Até 10 anos
Produtos siderúrgicos 0% - 10% 0% Até 10 anos*
Minerais críticos Variável 0%** Imediato a 10 anos

*Com regras de origem específicas para ferro e aço. **Garantia de isenção de impostos de exportação pela UE.

Vantagens para a Mineração Brasileira

Tabela 4 – Principais Vantagens do Acordo para o Setor Mineral

Área Benefício para o Brasil
Diversificação de Mercados Reduz dependência de mercados asiáticos e oferece alternativa às tensões comerciais com EUA e China
Atração de Investimentos Projeção de aumento de 1,49% no fluxo de investimentos estrangeiros; interesse europeu em projetos de mineração sustentável
Agregação de Valor Flexibilidade para impor restrições e impostos de exportação estimula processamento local de minerais críticos
Transferência de Tecnologia Parcerias em mineração sustentável, técnicas de processamento e tecnologias de transição energética
Aço Verde Matriz elétrica 85% renovável posiciona Brasil como fornecedor de produtos siderúrgicos de baixo carbono
Acesso Preferencial Eliminação de 100% das tarifas industriais da UE em até 10 anos; vantagem sobre concorrentes sem acordo
Cooperação Institucional Diálogos bilaterais em mineração responsável, energia renovável e biodiversidade
Compras Governamentais Empresas brasileiras poderão participar de licitações europeias em igualdade de condições

Requisitos de Sustentabilidade e Desafios

O acordo incorpora elementos inovadores em sustentabilidade que impactam diretamente o setor mineral. O Critical Raw Materials Act (CRMA) europeu exigirá das empresas brasileiras exportadoras maior transparência na cadeia de suprimentos, novas certificações e práticas de mineração mais sustentáveis.

Tabela 5 – Novos Requisitos e Desafios para Exportadores de Minerais

Requisito Implicação Ação Recomendada
Rastreabilidade da cadeia de suprimentos Necessidade de documentar origem e processo de extração Implementar sistemas de rastreio e certificação
Compromisso com desmatamento zero até 2030 Vinculação ao Acordo de Paris como elemento essencial Adequar operações em áreas sensíveis
Mineração responsável Padrões ambientais e sociais europeus Adotar certificações internacionais (ex: IRMA)
Regras de origem específicas para ferro e aço Critérios diferenciados para produtos siderúrgicos Garantir compliance com requisitos de origem
Due diligence ambiental Conformidade com regulações do Green Deal europeu Investir em processos de baixo carbono

Perspectivas e Próximos Passos

Com a aprovação pelos Estados-membros nesta sexta-feira (9), o acordo avança para as próximas etapas. A assinatura formal está prevista para segunda-feira (12) no Paraguai, com a presença de Ursula von der Leyen. No entanto, o tratado ainda precisará passar pelo Parlamento Europeu, onde a votação pode ser acirrada devido à oposição francesa.

Tabela 6 – Cronograma Atualizado de Implementação

Fase Descrição Status/Prazo
Conclusão das Negociações Anúncio do texto final em Montevidéu ✓ Dezembro 2024
Aprovação das Salvaguardas Parlamento Europeu aprova mecanismos de proteção agrícola ✓ 16/12/2025
Aprovação pelos Estados-membros Votação por maioria qualificada no Coreper ✓ 09/01/2026 
Assinatura Formal Cerimônia no Paraguai com Ursula von der Leyen 12/01/2026 
Ratificação Parlamento Europeu Votação em plenário – pode ser acirrada Próximos meses
Ratificação Mercosul Aprovação pelos congressos nacionais 2026
Entrada em Vigor Provisória Parte comercial pode entrar em vigor após ratificação bilateral 2026
Desgravação Tarifária Eliminação progressiva de tarifas industriais Até 10 anos após entrada em vigor