Caminhões pesados respondem por 30% das emissões de CO2
Um novo relatório da Idle Giants, iniciativa internacional para impulsionar a eletrificação de caminhões pesados, aponta que as montadoras tradicionais correm o risco de serem ultrapassadas por novas concorrentes – especialmente chinesas – caso não consigam ampliar a produção de caminhões elétricos. Os três maiores fabricantes de caminhões do mundo – Daimler Truck (Mercedes-Benz), Traton (Volkswagen Caminhões e Ônibus, Scania) e Grupo Volvo (Renault Trucks, Volvo Trucks) –, que detêm uma participação de mercado global superior a 80%, desempenham um papel significativo na aceleração da eletrificação desses veículos, mas precisam ampliar sua produção e oferecer preços competitivos para que essa transição realmente ocorra.
Os concorrentes chineses tem aumentado a produção e lançado caminhões elétricos acessíveis e econômicos no mercado, o que os coloca em uma posição privilegiada para capturar o crescimento. A SANY entrou no mercado brasileiro no final de 2025 com caminhões com preços entre R$ 1,8 milhão e R$ 1,9 milhão. Os modelos são comparáveis aos dos fabricantes tradicionais como a Scania, que custam em torno de R$ 2,5 milhões. Outras empresas também estão se expandindo, como a XCMG que lançou uma linha completa de caminhões elétricos. O movimento está alinhado com tendências regionais mais amplas: o mercado de ônibus elétricos da América Latina está crescendo rapidamente, mas permanece altamente concentrado, com a BYD liderando quase 44% da frota, seguida pela Foton e Yutong. No geral, as fabricantes chinesas respondem por aproximadamente 85% de todos os ônibus elétricos em operação na região. Embora as montadoras europeias ofereçam veículos pesados elétricos em seus portfólios, o ritmo da eletrificação ainda é lento. A alta demanda energética desses veículos e a eletrificação nesse segmento avançaram mais lentamente do que em outros, como veículos leves, com um atraso médio de seis a oito anos. Já as fabricantes chinesas possuem produção em larga escala de veículos pesados elétricos em seu mercado interno e continuam a se expandir globalmente, evidenciando uma crescente disparidade na velocidade de adoção entre as duas regiões.
“Alguns grandes fabricantes europeus ainda estão avançando muito lentamente na transição energética em países em desenvolvimento, mantendo o foco na produção de veículos pesados com motor de combustão interna. Ao mesmo tempo, ao adiarem a descarbonização, essas empresas correm o risco de perder participação de mercado para novas empresas, que já demonstram liderança na eletrificação do setor. Esse cenário ressalta a necessidade de uma mudança estratégica, focada na redução de preços para expandir o mercado, no aumento do investimento em veículos elétricos e no apoio a regulamentações capazes de viabilizar a transição em larga escala”, diz Clemente Gauer, membro da coalizão Idles Giants.
O Brasil continua sendo uma grande oportunidade para o crescimento do setor de caminhões elétricos e embora esses veículos ainda estejam em estágio inicial, a maioria das distâncias percorridas por eles ocorre em rotas de 100 a 600 km, distâncias que já estão dentro do alcance dos caminhões elétricos atualmente disponíveis. Um exemplo é o projeto e-Dutra, que prevê a criação de um corredor verde com pontos de recarga e a operação de 1.000 caminhões elétricos no trecho entre Rio de Janeiro e São Paulo até 2030. “A infraestrutura já está avançando e a tecnologia de caminhões elétricos já permite percorrer grandes distâncias, mas ainda falta um passo decisivo das próprias montadoras, que concentram a maior parte do mercado: ampliar a produção no Brasil. A escala é o fator determinante nessa transição, pois volumes maiores reduzem os custos por veículo e garantem vantagens competitivas difíceis de replicar. Ao desbloquear esse volume, os fabricantes podem viabilizar economias de escala e se posicionar para atender aos padrões de emissão", acrescenta Gauer.
Segundo dados disponíveis no estudo da Idle Giants, embora representem apenas 3% dos veículos nas estradas, os caminhões pesados respondem por cerca de 30% das emissões de CO₂ do transporte rodoviário. Essas emissões devem gerar até US$ 1,4 trilhão em custos relacionados à saúde em todo o mundo – associados aos caminhões vendidos pelos quatro maiores fabricantes ao longo de um período de 10 anos. Os caminhões elétricos reduzem o impacto da poluição associada ao diesel, tanto para a sociedade quanto para o meio ambiente, além de oferecerem custos operacionais mais baixos e maior eficiência. A proteção das empresas contra a volatilidade dos preços dos combustíveis é uma importante estratégia. Além disso, o relatório aponta que, em 2024, as vendas globais de caminhões elétricos cresceram quase 80%. Somente no primeiro semestre de 2025, foram vendidos quase 90.000 veículos em todo o mundo – principalmente na China, o que reforça a liderança do país na transição e explica por que seus fabricantes estão se expandindo fortemente para os mercados globais.