Em pouco mais de um ano, a Vale Base Metals superou suas próprias metas operacionais, mais do que dobrou o EBITDA e passou a se apresentar ao mercado como um candidato a protagonista global no fornecimento de minerais críticos. "Este negócio está em outra trajetória", afirmou Shaun Usmar, CEO da Vale Base Metals, durante o BBM Day realizado em março, no Canadá. "Estamos entregando nossa performance operacional. Mudamos fundamentalmente como fazemos projetos. Estamos destravando crescimento em cobre."
Minerais críticos como ativos estratégicos
Usmar foi além do discurso institucional, ao contextualizar o momento histórico. "Sob uma perspectiva ocidental, fomos, de certa forma, beneficiários inconscientes de um fornecimento confiável e de baixo custo por muito tempo. E isso está começando a se romper", disse ele. Para o CEO, conflitos no Oriente Médio e pressões sobre cadeias de suprimento globais estão tornando a segurança mineral uma prioridade estratégica de primeira ordem — e colocando a VBM em posição privilegiada.
Já a Chief Commercial Officer, Tina Gauthier, reforçou o diagnóstico com dados concretos. "Estamos vendo uma convergência de sistemas de energia, geopolítica e política industrial, o que deixa evidente que minerais críticos estão deixando de ser commodities e passando a ser ativos estratégicos", afirmou. Segundo ela, a demanda global por cobre deve crescer cerca de 50% até 2040, impulsionada pela eletrificação: veículos elétricos exigem quase três vezes mais cobre do que automóveis convencionais, e a demanda de eletricidade de data centers nos Estados Unidos pode saltar de 5% para 14% do total do país até 2030. No níquel, Gauthier projetou aumento de 42% na demanda ao longo da próxima década, com crescimento de 29% especificamente no segmento de alto valor — exatamente onde a VBM concentra sua atuação.
Para Marcelo Bacci, CFO da Vale S.A., "a VBM é um pilar muito importante e estratégico da Companhia, e vem ganhando cada vez mais relevância ao longo do tempo". Em sua visão, a companhia opera como um "negócio de dois motores": de um lado, o minério de ferro — robusto, de baixo crescimento, com produção entre 335 e 345 milhões de toneladas e meta de chegar a 360 milhões; de outro, a VBM — um negócio de metais básicos de rápido crescimento, com potencial de expansão orgânica de 4% a 6% ao ano.
Os números já refletem essa virada. Em 2024, a VBM representava 10% do EBITDA da Vale. Para 2025, a projeção sobe para cerca de 26%, com potencial de alcançar 30% a 35% no longo prazo. "Isso fará com que o negócio de metais básicos, como percentual do EBITDA total da Vale, seja muito semelhante ao que representa nos outros players diversificados", explicou Bacci, apontando que os concorrentes globais registram participação entre 25% e 45% nesse segmento.
Bacci também foi enfático sobre a capacidade de crescimento orgânico na região de Carajás, onde a VBM opera há mais de 40 anos. "Temos as pessoas, a infraestrutura, o conhecimento, as relações, temos todas as condições para entregar esse crescimento. E isso é sustentado por um potencial significativo de recursos, que nos dará ainda mais escala no futuro."
A aposta no cobre
Um destaque da VBM é o roadmap de crescimento em cobre, em que a meta é atingir 700 mil toneladas de produção anual até 2035, partindo das 382 mil toneladas entregues em 2025 — ano em que a companhia superou o guidance pela primeira vez em uma década.
Usmar foi preciso ao descrever o ponto de partida quando assumiu o cargo, em outubro de 2024. "Este negócio não atingia guidance há uma década. Precisávamos acertar isso primeiro." Em seguida, veio a reestruturação, quando se registrou mais de US$ 400 milhões em melhorias de caixa com a redução de despesas gerais globais, adoção de modelo descentralizado e inversão da lógica de gestão — da complexidade para o básico. Como resultado, houve uma melhora de US$ 1,9 bilhão no EBITDA em relação ao ano anterior. Desse total, segundo Usmar, cerca de US$ 850 milhões decorreram diretamente de ação gerencial.
O Chief Technical Officer, Chris McCleave, apresentou o portfólio de projetos que sustenta a meta de 700 mil toneladas. "O que vocês vão ouvir de mim hoje não é uma lista de desejos. É um portfólio de projetos reais, em diferentes estágios de maturidade, que, em conjunto, sustentam uma história crível de crescimento em cobre", disse ele, fixando três mensagens centrais: há um plano claro e executável; existe potencial crível além das 700 mil toneladas; e a forma de trabalhar foi fundamentalmente alterada.
Entre os projetos, o executivo destaca Bacaba — âncora de curto prazo no Hub Sul, em execução, com aproximadamente 23% de conclusão física. Ele informa que o capital do projeto foi reduzido pela metade em relação ao estudo de viabilidade original, sem aumento de custos operacionais. A taxa interna de retorno saltou de cerca de 15% para mais de 60%. "Isso mostra que simplificação disciplinada, parcerias fortes, decisões técnicas melhores e execução integrada podem destravar valor e, ao mesmo tempo, reduzir risco", afirmou McCleave.
Outro projeto de destaque foi o projeto Alemão, redesenhado de cava a céu aberto para operação subterrânea por subníveis com realces abertos. A mudança gerou cerca de US$ 500 milhões em otimização de CAPEX, com produção estimada em 80 mil toneladas de cobre e 140 mil onças de ouro por ano. "A licença prévia foi requerida em outubro de 2025 e estamos atuando de forma antecipada para mitigar riscos", disse McCleave.
No Hub Norte, o projeto Paulo Afonso emerge como o próximo grande passo: cava convencional a céu aberto, planta de 12 milhões de toneladas por ano, produção estimada de 80 mil toneladas de cobre e potencial de 16 anos de vida útil.
No Canadá, a joint venture Victor NRSE com a Glencore, em Sudbury, projeta produção de 50 mil toneladas de cobre por ano, com mais de 20 anos de vida útil — além de níquel, ouro, platina e paládio.
Uma das inovações técnicas mais comentadas pelo executivo da VBM foi a Coarse Particle Flotation (CPF), tecnologia que remove estéril mais cedo no processo de beneficiamento, antes da moagem fina, liberando capacidade ao longo de toda a cadeia. Em Salobo, a CPF aumentará a capacidade de processamento em cerca de 6 milhões de toneladas por ano, reduzirá o consumo específico de energia em aproximadamente 10% e gerará cerca de 30 mil toneladas adicionais de cobre por ano. "O ponto-chave da tecnologia CPF não é apenas Salobo, mas sua escalabilidade", destacou McCleave. "Ela pode ser implementada gradualmente em vários de nossos concentradores ao longo do tempo."
Leia a matéria completa na edição 457 da Brasil Mineral