Parceria com a Índia permitirá à CBL triplicar capacidade de refino

18/02/2026
A associação com a Altmin, que já é cliente da companhia brasileira desde 2019, é estratégica, porque vai viabilizar o crescimento orgânico da refinaria, que já é licenciada para expansão.

 

A CBL (Companhia Brasileira de Lítio) deverá triplicar a capacidade de produção de sua refinaria de lítio, que é atualmente a única refinaria fora da China que processa espodumênio até chegar ao composto químico de alta pureza para utilização na fabricação de baterias de veículos elétricos. Para realizar a ampliação, que elevará a capacidade de produção de 2 mil t/ano para 6 mil t/ano, a CBL contará com recursos da US$ 40 milhões que foram aportados pela indiana Altmin, em troca de uma participação de 33% no controle acionário da CBL Refinaria.

De acordo com Vinícius Alvarenga, CEO da CBL, a associação com a Altmin, que já é cliente da companhia brasileira desde 2019, é estratégica, porque vai viabilizar o crescimento orgânico da refinaria, que já é licenciada para expansão (projeto brownfield, fast track) no município de Divisa Alegre, em Minas Gerais. Ele explica que a unidade de refinaria atual da CBL, embora pequena, “possui um valor imenso como acervo tecnológico, por ser a única fora da China a processar espodumênio até o composto químico de alta pureza. O problema é que, por ser pequena, a refinaria da CBL não tem competitividade internacional, tanto que atualmente o retorno financeiro do investimento em mineração é significativamente maior do que no refino. Por esta razão a CBL buscou um sócio estratégico”.

Além do fato de ser um cliente antigo, a escolha da Altmin se justifica pelo fato de ser empresa de um país alinhado com o Ocidente, que está desenvolvendo sua própria tecnologia de aplicação em cátodo de bateria. E o carbonato de lítio grau bateria é usado exclusivamente para produção do cátodo de baterias íon-lítio, que tem como único cliente possível o produtor de cátodo.

“A Índia está implementando, com recursos públicos, uma política de estado para uma cadeia integrada de lítio, o que deve fomentar a demanda e levar a investimentos privados, apesar de o país não possuir recursos minerais de espodumênio. E a Altmin busca um parceiro tecnológico para aproveitar o conhecimento da CBL como um grande ativo”, diz ele.

Alvarenga acrescenta que o acordo com a Altmin significa também a conquista da sustentabilidade econômica para a CBL Refinaria (braço da CBL separado da parte de mineração), aumentando a competitividade e garantindo o mercado no segmento de baterias, além de abrir perspectivas para futuros desenvolvimentos baseados em seu conhecimento. “O principal valor do acordo não é o Capex em si, mas sim o contrato de offtake de 15 anos para a aquisição do carbonato de lítio grau bateria em ótimas condições”.

Vinicius Alvarenga

Para ele, a CBL tem todas as condições para atender a possíveis crescimentos de demanda, explicando que a empresa possui recursos minerais auditados suficientes para produzir a uma escala de 200 mil toneladas por ano, durante 15 anos e atualmente está planejando ir para 115 mil toneladas/ano. “Os projetos de mineração e refinaria levam cerca de 24 meses, e a empresa não deve embarcar em novos projetos até que os atuais estejam consolidados”. Mesmo assim, ele vê grandes possibilidades de crescimento da CBL, dadas as suas áreas atualmente em exploração, que representam apenas 15% de seus direitos minerários. Com o projeto de 115 mil toneladas/ano, segundo ele, a CBL já se torna uma empresa grande no segmento de lítio, que não possui grandes empresas em comparação com outros minerais.

O dirigente demonstra algum ceticismo quanto ao desenvolvimento do mercado de lítio grau bateria no Brasil, porque para tal seriam necessárias fábricas de cátodos e células, o que por sua vez exige uma demanda que o País ainda não possui. Segundo ele, “o que impulsiona o adensamento da cadeia do lítio é a demanda garantida e a cadeia depende de políticas públicas para se desenvolver”.

Preços e concorrência chinesa

A grande dificuldade no mercado de lítio, conforme o dirigente da CBL, é o controle exercido pela China, que influencia os preços. “Embora acima do nível de equilíbrio, o preço do lítio no mercado está volátil”, diz ele, lembrando que historicamente o prêmio do carbonato de lítio grau bateria em relação ao grau técnico é de 10%. “A concorrência com os chineses em ‘mar aberto’ é difícil, devido aos grandes investimentos em refino que eles fizeram nos últimos 15 anos, o que gerou uma espécie de dumping”. Mesmo assim, Vinicius Alvarenga acredita ser possível que os preços voltem aos níveis de pico, embora sujeitos a grandes quedas”. O preço de equilíbrio do mercado para justificar novos projetos e manter a cadeia saudável está entre US$ 15.000 e US$ 20.000 por tonelada.

Indagado sobre a possibilidade de empresas chinesas investirem na mineração de lítio no Brasil, o executivo afirmou que eles já fizeram isso na África, onde obtiveram um ritmo de crescimento de oferta que o Brasil, por ser uma província mineral madura e com processos de licenciamento mais longos, não conseguiria fornecer. “Eles também não têm interesse em investir no refino no Brasil e estão focando investimentos em refino no Marrocos e na Indonésia, para contornar questões geopolíticas de fornecimento aos fabricantes de veículos ocidentais”, finaliza Alvarenga. (Francisco Alves)