O ESG deixou de ser instrumento de reputação para se tornar fator de risco e sobrevivência nas empresas de mineração. Essa foi a tônica do Fórum de Líderes do 11º Seminário Mineração e Comunidades, promovido pela Brasil Mineral, que reuniu executivos de cinco mineradoras em diferentes estágios de maturidade. O debate, moderado por Wilson Brumer, evidenciou que, independentemente de resistências momentâneas ao termo ESG, as expectativas da sociedade por operações mais seguras e responsáveis são irreversíveis. Os painelistas também abordaram o papel da escuta ativa das comunidades, a importância de pensar o fechamento de mina desde o primeiro dia de operação e os desafios da insegurança jurídica no Brasil.
ESG como conquista civilizatória
Wilson Brumer abriu o painel contextualizando a evolução do conceito de sustentabilidade desde as décadas de 1970 e 1980, quando o termo surgiu com foco predominante em meio ambiente. "Sustentabilidade é sim meio ambiente, mas é gente, é comunidade, é tecnologia, é lucro. Se empresa também não der lucro, não é sustentável", afirmou, ressaltando que o ESG representa um aprimoramento conceitual que vai além de um somatório de letras.
Othon de Villefort Maia, vice-presidente de Sustentabilidade e Assuntos Corporativos da AngloGold, reforçou essa perspectiva ao defender que o ESG representa uma conquista civilizatória. "Independente de algum pushback momentâneo que possa acontecer no mundo, é claro que as expectativas da sociedade serão sempre por atividades mais seguras, atividades que zelem pela proteção ambiental, que contribuam mais pra sociedade. Isso não muda numa visão de longo prazo", declarou.
Para Maia, o conceito pode ser simplificado em dois pontos: "fazer o que é certo agora" e "estar conectado a tendências futuras". Ele destacou que sustentabilidade não é ponto de chegada, mas busca contínua, o que pode gerar sensação de desgaste ao se discutir sempre os mesmos temas.
Licença social desde o primeiro dia
Marisa César, diretora de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade da PLS, trouxe a experiência de uma empresa australiana que adquiriu um projeto de lítio em Salinas, Minas Gerais, em região semiárida com comunidades quilombolas no entorno. Segundo ela, o décimo funcionário contratado foi designado para relacionamento com a comunidade, quando havia apenas duas sondas no campo.
"Nós decidimos fazer a consulta livre pré-informada. Nos tornamos um case da CMAD e apresentamos na COP 30 por termos realizado essa consulta. Isso nos deu um carimbo de uma licença social", relatou César. A executiva enfatizou que o trabalho de "letramento minerário" junto às comunidades tem sido fundamental para mitigar movimentos contrários à mineração na região.
Rafael Murro, diretor de Operações da Galvani, destacou a juventude da agenda ESG comparada à história da mineração. "A sigla ESG surge em 2004. Sustentabilidade, com falas mais fortes, em década de 90. Então é uma agenda extremamente jovem comparada à mineração. Temos quilômetros pra correr", afirmou. A Galvani, empresa 100% nacional que produz fertilizantes fosfatados na Bahia, implementou um programa de portas abertas que inclui visitas durante a fase de construção de novas operações.
Pessoas no centro das decisões
Isabela Dumont, head de Pessoas, ESG e Comunicação da Aura, apresentou o caso da Guatemala, país onde 100% dos municípios não possuem água potável segura para consumo devido à contaminação natural por arsênio. A empresa enfrentou um ambiente de forte oposição à mineração e, após 1.500 horas de diálogo com a comunidade local, optou por abandonar o projeto de mineração a céu aberto em favor de uma operação subterrânea.
"A gente levou tanto em conta essa preocupação, que a gente decidiu não seguir pelo caminho da mineração open pit, que era a maior preocupação deles também pela questão visual, e seguimos com a operação underground. Isso conectou uma relação de confiança", explicou Dumont.
Othon de Villefort Maia complementou apresentando o conceito de "triple zero" adotado pela AngloGold: zero evento social, zero evento ambiental e zero evento de saúde e segurança. O executivo revelou que 100% dos empregados da empresa, incluindo executivos e mão de obra operacional, possuem objetivos de ESG em sua remuneração variável. "Outro dia eu vi um número que eu fiquei chocado: uma pessoa, ao longo de uma jornada de trabalho, toma duas mil decisões. Somos 6.500 pessoas na AngloGold, estamos falando de mais de 12 milhões de decisões por dia sendo tomadas", contextualizou.
Leia a matéria completa na edição 458 da Brasil Mineral