03/12/2020
REJEITOS DA MINERAÇÃO

Uso requer tecnologias inovadoras

O Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) promoveu o webinar "Sustentabilidade no uso dos rejeitos da mineração: economia, regulação e aproveitamento" no dia 1° de dezembro, virtualmente. O evento teve apoio institucional do Ministério de Minas e Energia (MME) e patrocínio da Vale.

No primeiro painel, o Managing Director da Hatch Austrália, Jan Kwak, disse que as mineradoras não vão conseguir fazer negócios se não levarem em conta o ‘imperativo social’, ou seja, precisam pensar no meio ambiente e no aspecto social não mais como custos, mas como benefícios que podem gerar para a coletividade. 

O presidente do Conselho Diretor do Ibram, Wilson Brumer, por sua vez, afirmou que “o ideal seria não produzirmos nenhum rejeito, mas como isso ainda não é possível, cabe melhorar continuamente sua gestão e investir em muita pesquisa e inovação e novas rotas tecnológicas para reduzir a quantidade de rejeitos, como também estruturar uma cadeia produtiva baseada no aproveitamento econômico desses resíduos industriais”. Acompanhando Brumer, o executivo da Hatch comentou que é necessário produzir cada vez menos rejeitos, e ainda saber gerenciá-los. Jan disse que a empresa australiana realizou pesquisa em parceria com o Conselho Internacional de Mineração e Metais (ICMM) sobre as tecnologias que desempenham papel importante no gerenciamento de rejeitos. “Foram listadas 150 tecnologias. É algo muito positivo. Significa que há muito acontecendo nesse segmento e muitos grupos trabalhando neste tema. O desafio é integrar esses trabalhos e gerar valor a partir disso”, afirmou. Entre as tecnologias pesquisadas estavam fragmentaçao de pulso elétrico; explosão de ultra intensidade; desmonte de rocha; fragmentação térmica; seleção de minério na cava.

O diretor geral da Agência Nacional de Mineração (ANM), Victor Bicca, informou que em “curto espaço de tempo iremos redenominar o conceito ‘rejeito’ para ‘subproduto’ da lavra mineral. Para Bicca, os planos de aproveitamento econômico preparado pelos engenheiros de minas terão que ser mais exaustivos para prever o uso futuro desses hoje conceituados ‘rejeitos’. “Os rejeitos passarão a ser produtos tão ou mais importantes do que o produto principal da empresa mineradora”, disse. O diretor da ANM lembrou que na EXPOSIBRAM 2020, a ANM lançou consulta pública para receber contribuições sobre o aproveitamento de rejeitos da mineração. A consulta estará aberta até 11 de janeiro de 2021. 

Já Bruno Eustáquio Ferreira Castro de Carvalho, secretário executivo adjunto do Ministério de Minas e Energia, associou a gestão de rejeitos minerais ao crescimento da economia circular, por meio do aproveitamento econômico desses materiais. “Cada vez mais o aspecto “sustentabilidade” e demais conceitos do ESG – meio ambiente, responsabilidade social e governança estarão relacionados aos rejeitos, além de estar previsto no Programa Mineração e Desenvolvimento apresentado recentemente pelo governo federal. 

Daniel Franks, pesquisador do Sustainable Minerals Institute, da The University of Queensland, também participou do primeiro painel 'Futuro da Geração e Aproveitamento de Rejeito no Mundo'. Este painel foi mediado por Tito Martins, CEO da Nexa Resources. Franks citou a importância das políticas de destinação adequada aos rejeitos. Ele citou pesquisa que revela a produção de 44,5 bilhões de m3 de rejeitos no mundo. Para dar uma ideia desse volume, ele disse que em uma cidade como Manhattan (EUA), se este volume fosse espalhado em toda sua área, atingiria a altura de 700 metros. “O volume de rejeitos aumentou muito no mundo; dobrou entre 1969 e 1989, por exemplo”. Diane Tang-Lee, Tailing Manager do ICMM, disse que o instituto desenvolve iniciativas para modernizar as normas orientativas para a gestão de barragens de rejeitos no planeta, além do Guia de boas práticas do ICMM sobre gestão de barragens, com conteúdos sobre boa governança, cultura empresarial de segurança e boas práticas de engenharia. 

Patrícia Daros, gerente de Conhecimento e Empreendedorismo de Impacto da Vale, disse que a companhia tem sido proativa nos últimos anos para estruturar um negócio envolvendo o aproveitamento econômico dos rejeitos, levando em conta a cadeia produtiva como um todo para que gere valor ambiental e social, além do retorno financeiro para o investimento. “Com o avanço tecnológico temos uma forma de mineração muito adequada à sustentabilidade”, afirmou. 

A Vale estruturou o projeto S11D, no Pará, em que não há barragens para os rejeitos, e recentemente a mineradora iniciou projetos-pilotos para produzir blocos para a construção civil fabricados com rejeitos e também o uso de resíduos para remineralização, ou enriquecimento, de solos para a agricultura, bem como para a preservação de florestas.

O 2º painel intitulado 'Aproveitamento dos resíduos, estéreis e rejeitos: aspectos técnicos e econômicos', reuniu representantes da Academia, de empresas do setor e do governo federal. O diretor-presidente do Ibram e moderador do painel, Flávio Ottoni Penido, ressaltou os avanços nos processos de utilização de resíduos de mineração em diversos setores da economia. “Estamos muito voltados aos rejeitos de minério de ferro, mas não podemos nos esquecer que são diversas substâncias minerárias, que podem ser reutilizadas. Há um avanço bastante grande nesse sentido em vários segmentos do setor mineral”, disse. “O conceito de reutilizar que aplicamos no DNIT se amplia de forma muito significativa em função do volume de rejeitos da mineração. Para mim, a grande palavra aqui é oportunidade”, disse o Diretor de Planejamento e Pesquisa, Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), Luiz Guilherme Mello. 

Segundo o diretor de Projetos da Mosaic Fertilizantes, Camilo Silva, a preocupação maior da companhia é saber dar um uso correto aos resíduos, pois desta forma eles estariam ligados às políticas de sustentabilidade da Mosaic. “Precisamos ter o foco em minimizar a geração de resíduos. A empresa continuará buscando soluções e alterando, se for necessário, processos produtivos para minimizar a geração de resíduos e contribuindo com algum produto que possa ser utilizado pela sociedade de uma maneira geral”.

Participou do painel também o professor associado da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI), Sergio Soncim, e pelo gerente de Novos Negócios da Vale, André Vilhena.  O acadêmico reforçou a ideia do desenvolvimento de projetos de reaproveitamento de rejeitos. “Tudo tem que partir da pesquisa. É muito importante sob o ponto de vista de confirmação das propriedades físicas, mecânicas e químicas dos materiais para que eles possam ser utilizados. Mas, para avançar do âmbito das pesquisas e da aplicabilidade no mercado é necessária a normatização desses materiais. É importante a participação dos órgãos governamentais no sentido de se promover a regulação em termos de classificação e normatização dos materiais”, disse. 

Do ponto de vista das empresas, Vilhena, da Vale, afirmou que “os custos logísticos são grande parte da cadeia de comercialização do produto”. Segundo ele, a plataforma logística de ferrovia da Vale dá um alcance um pouco maior que um transporte rodoviário, por caminhões. “Com nossas operações concentradas em Minas Gerais, ter acesso a mercados muitos distantes torna um desafio levar o material até esses locais”, disse.