14/04/2020
DIA NACIONAL DO AÇO

Setor tem pouco a comemorar

Por Paulo Seabra *

No dia 09/04 comemoramos o Dia Nacional do Aço, que foi criado pelo ex-presidente Getúlio Vargas em 9 de Abril de 1941, homenageando este metal fundamental para o desenvolvimento das sociedades. A comemoração em 2020 será diferente dos anos anteriores, devido ao desafio imposto pelo Coronavírus – COVID 19, sem precedentes na história recente mundial. Os principais mercados do mundo se retraíram diante do quadro de pandemia e, com isso, as siderúrgicas sofreram um efeito imediato. Grandes consumidores como montadoras de veículos e linha branca reduziram ou pararam suas produções, gerando um impacto muito grande na demanda por aço, no Brasil e no Mundo. Ainda não é possível saber o tamanho desta queda na demanda, pois isso ainda depende da evolução da doença como também da eficácia das ações anticíclicas que estão sendo tomadas por vários países no mundo.

Felizmente, ao meio de notícias tão negativas há também notícias que geram uma melhora na expectativa econômica, o que é muito importante para a recuperação no otimismo dos empresários e indústria em geral de que poderemos sair desta crise com lesões menores do que o previsto inicialmente. É o caso dos recentes anúncios de muitos países que estarão injetando na economia incentivos financeiros da ordem de bilhões e até trilhões de dólares, representando percentuais de até 16% do seu respectivo PIB. Espera-se que os pacotes de estímulo formulados por governos como os da China, Estados Unidos e da Europa levem a uma recuperação razoável da demanda. Temos também as boas notícias que começam a chegar de que alguns países que adotaram o isolamento, que já estão vivenciando o fim do pico do contágio e alguns já observando uma redução nos números diários de mortes e novos casos. Tudo isso sinaliza esperança e uma luz no fim do túnel de que esta crise poderá ter seus impactos de uma certa forma controlados e direcionados para um caminho menos escuro do que inicialmente se previa.

Os desafios são inúmeros para a siderurgia. Algumas estimativas prevêem uma queda de 20% no consumo aparente do aço em 2020, sendo que o momento mais agudo será entre Abril e Maio, quando a demanda deverá cair em 50%, fechando o segundo trimestre com uma queda esperada de 40%. Além da queda na demanda, a siderurgia deverá ser impactada também pela escassez de matéria prima gerada pela interrupção na produção de mineradoras ao redor do mundo, resultando em uma estimativa de que em até 2 meses poderemos começar a observar problemas no suprimento de minério de ferro.

Outro ponto importante a se levar em consideração é que os estímulos econômicos sem precedentes anunciados em vários países possam vir acompanhados de efeitos negativos, como a disparada dos déficits fiscais. Esses efeitos negativos poderão ser uma armadilha para a retomada do setor, impactando a demanda futura. Adicionalmente, ainda é cedo para avaliar o intervalo de tempo que haverá entre os estímulos financeiros e a recuperação da economia, isso sem mencionar os riscos inflacionários e uma série de outras desvantagens associadas a essas intervenções.

Tendo em face o cenário desafiador, o setor deverá manter e até aumentar o foco em ações de sustentabilidade e inovação. Com o avanço das informações instantâneas e a necessidade de soluções rápidas, as mudanças organizacionais forçam a empresa não somente a mudar sua forma de atuar, mas também a forma de investir. A sustentabilidade surgiu em torno dos anos 1970, como fruto das grandes inovações tecnológicas e industriais do momento. Logo, é quase impossível falar de sustentabilidade sem levar a inovação em consideração. Do ponto de vista prático, é absolutamente normal manter um negócio tradicional, como é a fabricação de aço, mas ainda assim as siderúrgicas devem investir em recursos inovadores que possam propiciar melhoria nos processos de gestão e qualidade dos produtos, por exemplo. O mesmo vale para os processos de logística, gestão integrada de rede, para comunicação, etc.

Ser sustentável em um setor siderúrgico cada vez mais competitivo requer criatividade e consequente inovação das ações. A sustentabilidade envolve ações em relação ao meio ambiente e ao desenvolvimento da sociedade. Uma empresa sustentável se preocupa com o impacto que suas atividades afetam a natureza e a sociedade em que está inserida. Isso não significa que ela deve parar de gerar lucros, muito pelo contrário. A sustentabilidade também se refere à saúde financeira da instituição, que é o pilar do desenvolvimento econômico. Hoje em dia há uma série de abordagens para incentivar a inovação para a sustentabilidade dentro das organizações. O primeiro passo é que a considere como uma oportunidade e não uma ameaça.

No caso do nosso grupo, estabelecemos metas desafiadoras, que incluem alcançar objetivos de desenvolvimento sustentável e contribuir para a conservação ambiental e o bem-estar da comunidade, sempre alinhados aos interesses econômicos de longo prazo.

Inovação também é um dos pilares do Grupo há muito tempo: um programa de inovação foi lançado pela empresa no ano 2.000 e, desde então, cerca de 200 projetos foram implementados para modernizar as instalações de produção existentes e criar novas capacidades. Foram investidos mais de 5 bilhões de dólares norte-americanos, dos quais mais de 10% foram destinados a projetos ambientais.

Quando ponderamos a importância do aço no nosso dia-a-dia com a imensa capacidade da indústria siderúrgica de inovar e se manter sustentável, podemos concluir que o setor sempre terá forças para superar as crises que porventura ocorram, como esta crise gerada pelo Coronavírus. Todavia o cenário não é favorável e no curto prazo o setor terá que se adaptar e tomar medidas drásticas para estar preparado para atravessar este momento desafiador sem procedentes na história recente. Historicamente o setor siderúrgico sempre contou com profissionais altamente capacitados e é nas pessoas que está a grande força deste setor para manter-se competitivo e colaborando diretamente para o futuro da humanidade.


* Paulo Seabra é Diretor Geral da NLMK South America Sales