03/09/2020
ARTIGO

Os impactos de longo prazo da COVID-19 na indústria de mineração no Brasil

Por Matthew Govier e Flavio Alves *

O mundo vive mudanças dramáticas que poucos poderiam imaginar há seis meses. A indústria do turismo, por exemplo, vê seu faturamento cair 75% desde abril. O índice de falências aumentou 30% em maio, em comparação a abril, quando começou a pandemia. Mas, será que a COVID-19 causou impactos, também, na indústria de mineração?

É tentador achar que não houve impacto negativo na nossa indústria, especialmente no Brasil, que possui um portfólio mineral com alta proporção de minério de ferro. Por diversos motivos, os preços desse tipo de minério seguem firmes, em alta e coincidem com uma boa gestão do crescimento de capacidade produtiva. Tudo isso impacta positivamente o desempenho acionário das principais empresas do setor e gera riquezas para o País, muito bem-vindas por sinal.

Mas acreditamos que a COVID-19 trouxe impactos sim, que não são meramente “lições aprendidas” que tiramos desse tsunami que nos assolou. Estamos falando de mudanças estruturais em comportamentos e dinâmicas produtivas e de consumo - em sua maioria acelerações de tendências preexistentes - que impactam na competitividade das empresas no longo prazo e requerem ser tratadas pelos nossos líderes na indústria, incluindo ações e decisões já no curto prazo.

Primeiramente, esta pandemia mudou nossa percepção de risco. A probabilidade de outras como essa de COVID-19 é controversa, e tema para outros especialistas, mas é possível afirmar que mudou nossa percepção sobre os riscos que cercam a continuidade das operações de mineração e sobre a necessidade de proativamente monitorá-los e mitigá-los. Hoje, com a experiência que adquirimos, estamos mais cientes da importância da resiliência operacional e das precauções que temos de tomar para nos preparar para futuras crises.

A continuidade das atividades administrativas e “de escritório” e as soluções para viabilizar o trabalho remoto produtivo são temas amplamente discutidos, mas a resiliência operacional nessa indústria vai muito além disso. Percebemos hoje que será necessário um grau significativamente maior de dados, ferramentas e tecnologias digitais para automatizar operações, monitorar movimentações de pessoas, tomar decisões mais rápidas e mitigar riscos de impacto na produção. Por exemplo, caminhões e operações autônomas são cada vez mais comuns no mundo inteiro, e crescerão por aqui também.Trata-se de uma tendência da indústria que será acelerada nos curto e médio prazos, pois contribui diretamente com excelência operacional, confiabilidade, segurança e sustentabilidade.

A boa notícia é que muitas dessas soluções digitais – tal como o que a Accenture chama de “Connected Worker” – utilizam os mesmos “chassis” de soluções que aumentam produtividade e otimizam os ativos, aumentando a produtividade e a qualidade do produto. A utilização de inteligência artificial em video analytics traz insights importantes para a produtividade e para a segurança, por exemplo.

Na esteira do aumento de soluções digitais vem outro conjunto de riscos que não podemos ignorar: o cibernético. Se, por um lado estamos com os sentimentos mais aguçados para os riscos sobre nossas pessoas e para a continuidade da nossa operação, por outro temos de nos lembrar que estamos cada vez mais dependentes da tecnologia digital. Qual é o benefício de uma caríssima rede de soluções IoT na produção se um ataque cibernético pode comprometer a confiabilidade dos dados ou, no extremo, causar o desligamento de uma retomadora de minério no momento errado? Não surpreende, então, que estamos observando uma forte aceleração na implementação de soluções e serviços de cybersecurity na indústria.

Para fazer frente a essa mudança de patamar de percepção de risco e proteger o valor da empresa, gestores na indústria precisam acelerar a transformação digital que viabiliza a adequada visibilidade de gestão desses riscos, sejam operacionais, administrativos ou cibernéticos.

Em segundo lugar, a pandemia nos lembrou que a confiança é cara. Stakeholders em todos os pontos da nossa cadeia de valor têm uma opinião sobre nossas empresas e sobre nossa indústria. Na pandemia, as decisões dos nossos líderes – se devemos ou não fazer lockdown e quais protocolos adotar, para citar apenas algumas – estão escancaradas para o escrutínio geral da população. E os negócios estão cada vez mais assim também: o compartilhamento e fatos e dados, nem sempre acurados, geram as mesmas polarizações que vemos em outras esferas. Em mineração, isso significa uma gestão cada vez mais complexa das expectativas dos stakeholders.  Para enfrentar essa nova realidade, as empresas de mineração precisam inverter a equação, ou seja, alavancar a seu favor as mesmas tecnologias que trouxeram esse desafio e dar maior visibilidade às diversas ações de sustentabilidade e responsabilidade social em andamento na indústria.

Alavancar tecnologias significa ter uma atuação muito mais profunda e proativa em mídias sociais, por exemplo. Precisamos ficar muito mais antenados com as expectativas desses stakeholders. Cresce a importância do uso de ferramentas como “Sentiment Analysis” e analytics para mapeamento e entendimento das opiniões e reações das comunidades no entorno das nossas operações. Tecnologias permitem, também, que segmentemos essas análises, obtendo insights sobre diferentes momentos ou tópicos, desde projetos, operações, acidentes ou descaracterizações de barragens, por exemplo.

Nessa nova realidade, ter e articular um propósito nobre que ultrapassa o objetivo da geração de valor para shareholders ꟷ fundamentada com valores legítimos, e viabilizada por comportamentos igualmente nobres de todos os envolvidos ꟷ é ponto de partida para o sucesso de longo prazo. Em um mundo que pratica o distanciamento social, o propósito ficou ainda mais importante na liderança de grandes organizações dispersas.

Muito além da antiga “missão e visão”, o real propósito inspira colaboradores, fornecedores e clientes a atuarem de forma íntegra na geração de valor para todos. Com um propósito bem articulado e compartilhado, aumenta-se a probabilidade de que gestores e colaboradores da indústria conduzam os negócios de forma responsável, ambiental e socialmente. Não é surpresa que estamos vendo um movimento forte de “Responsible Business” na indústria de Recursos Naturais mundial, transformando a antiga “Corporate Social Responsibility” em algo muito mais legítimo e menos acessório. Por sua vez, uma condução responsável dos negócios permite aos gestores se beneficiarem de Marketing Digital para divulgar essa geração de valor com orgulho, alavancando o merecido capital reputacional para vender mais, evitar multas e interrupções de autoridades governamentais, e também para obter mais licenças para operar no longo prazo.

Em último lugar, mas não menos importante, a pandemia reforça a importância da liquidez, algo chave quando surgem momentos de volatilidade que incentivam credores a trancar seus caixas. Ninguém quer ser pego de surpresa novamente.  Assim, temos visto uma aplicação cada vez mais ampla de analytics e dados para trazer visibilidade e insights na gestão de caixa das empresas de mineração. Aumentou-se a exigência de disciplina e rigor na gestão da dívida e do capital de giro em particular. Gestores devem acelerar a transformação digital das suas áreas financeiras, tanto nos processos de tesouraria como nos de gestão de desempenho do negócio, que levem a uma gestão mais correta do caixa, o que permite previsibilidade e planejamento superiores.

A COVID-19 trouxe impactos em como a indústria opera, na importância da automação e digitalização, na gestão de riscos, no uso de ferramentas e dados para a gestão de stakeholders, entre outros. Vamos lembrar da COVID-19 para o resto das nossas vidas, mas estamos todos na torcida de que o vírus não veio para ficar e que encontraremos rapidamente uma vacina e novos tratamentos que reduzam seus impactos negativos. Felizmente, na indústria da mineração, temos “vacinas e tratamentos”, na forma de transformações digitais do negócio, que nos protegem dos piores impactos, permitindo que continuemos gerando valor para toda a sociedade. 


Matthew Govier e Flavio Alves são executivos líderes para indústria de recursos naturais e sustentabilidade na Accenture