07/04/2020
OPINIÃO

A mineração é essencial para quem?

A propósito do editorial na edição n°398, da Brasil Mineral (*), com o título “Essencial a quem?”, abrangendo um tema recorrente no nosso meio e que está chegando a tal ponto de já constituir uma espécie de “paradoxo impossível” da mineração, venho fazer e exteriorizar algumas reflexões. Um dos melhores exemplos de “paradoxo impossível” - e que gosto de citar, é a “Onipotência Divina” (“Deus é capaz de fazer uma pedra tão pesada que nem ele possa levantar”?). O paradoxo impossível da mineração é a imprescindibilidade da atividade (“Se a atividade é imprescindível para a civilização - tal e qual a conhecemos-, e se cada ser humano sucumbe inexoravelmente à utilização de seus produtos no dia-a-dia, por que é que não a reconhecem?) e nessa edição destaca-se em função da  pergunta de uma jovem.

Refleti sobre os argumentos do editorialista, sobre nossos argumentos, para buscar entender o paradoxo impossível da mineração.  E, refletindo, constato que, estando há mais de quarenta anos vivendo no meio da mineração, continuo vendo em todos nós um realimentar contínuo do dilema, sem que avanços sejam feitos de fato no convencimento da essencialidade da mineração. 

Ainda há poucos dias lia, no grupo “Mineronegócio”, um desfilar das mesmices tão próprias de todos nós, repisando as frases feitas: “falamos para nós mesmos”, “é preciso divulgar mais a atividade”; “é necessário, pedagogicamente, falar de sua importância para as crianças”; “ah, por que o agronegócio é pop e nós somos vilões perante a sociedade”... e vai por aí. No editorial da Brasil Mineral a mais forte argumentação – no meu ponto de vista – é o fato de que a mineração não atinge as pessoas comuns diretamente, que está muito distante de suas compreensões. No mais, a argumentação do editorial trilha os mesmos caminhos habituais – que também seriam meus argumentos! - da participação no PIB (as outras atividades industriais também participam!), empregos (todas as atividades econômicas os geram, em maior ou menor número!), tributos e que deveriam “refletir em benefícios sociais” (idem, todas geram e “benefícios sociais” não são o propósito maior dela. Ou são?) e termina na mesma imprescindibilidade da atividade (gostamos muito de falar nisso atualmente, todos nós, mas também paradoxalmente não se atinge a pessoa comum! Seriam peças de marketing mal concebidas?). Essa argumentação, que também uso sempre que necessário, não tem tido sucesso, exceto na pregação para todos nós já convertidos!

Não entendo absolutamente nada de marketing, publicidade ou de técnicas para divulgação e consolidação de uma ideia, de uma imagem. Contudo, sabem o que constatei (creio que alguém já falou nisso antes)? Na empresa em que trabalho tem gente que está lá há 10, 15, 20 anos e nunca foi à mina, não conhece o que é uma planta de beneficiamento, não sabe exatamente o porquê é necessário se executar uma série de operações sobre a rocha bruta para se ter os produtos! Em quantas empresas de mineração isso deve acontecer? Essas pessoas, que deveriam ser os “soldados da mineração”, aqueles que estão na linha de frente para divulgação da essencialidade, da imprescindibilidade a que todos nós nos referimos tão apropriadamente, não têm conhecimento do que exatamente faz a empresa em que trabalham! Também deveriamos mostrar orgulho da atividade, todos nós, mas me parece que não é bem assim. Em meio adverso não raras vezes ficamos encolhidos, nos recolhemos no claustro do silêncio ou de argumentos repisados quando somos confrontados com os impactos ambientais da atividade, dos “buracos” legados à sociedade, o que já me fez ouvir que “a mineração capitaliza o lucro e socializa as mazelas de suas ações”!

Por isso tudo, sem a pretensão de inventar a roda, cada empreendedor da mineração precisa, urgentemente, começar a cuidar do seu próprio quintal. É preciso que seja um exemplo para seus funcionários e desse exemplo fazer o alistamento daqueles que sentem orgulho da atividade e farão sua divulgação por sentirem, sim, a imprescindibilidade de seus produtos para toda a sociedade. Quando tivermos de fato um exército de dogmatizados conscientes, então poderemos pensar em ter o sucesso do “Agro é pop”, porque nesta atividade qualquer um consegue ver que, graças a ela, temos comida na mesa. E não precisamos ser convencidos. Por ora, apenas nos envergonhamos dos desastres recentes que causamos e nos escondemos sob argumentos técnicos de que determinados eventos são imprevisíveis, estão “além da fronteira da Engenharia e do conhecimento técnico”, como já se disse sobre o fenômeno da “liquefação” catastrófica que veio delinear o rótulo mais conhecido da atividade para a opinião pública desde o acontecido.

Deixo aqui esta reflexão porque o editorial me inspirou, mas acho ainda que faltou nele um detalhe e que pode ter deixado o leitor com a impressão de inconcluso: houve réplica da jovem diante de sua argumentação da essencialidade dos minerais para 7 bilhões de humanos? Ficamos curiosos sem saber que tipo de contra-argumento ela teria apresentado!

Daniel Debiazzi
(Membro do Conselho Consultivo da Brasil Mineral)

(*) O editorial “Essencial para quem?” está acessível em:
www.brasilmineral.com.br/revista/398