29/06/2020
OPINIÃO

Conteúdo impróprio para menores e neoliberais

Por Milton Rêgo *

Antes de continuar lendo, tire as crianças – e os neoliberais – da sala. Trato aqui de como a pandemia deve afetar profundamente as gerações futuras e de como ela desbotou subitamente as ideias da Escola de Chicago.

O recém-lançado relatório do Banco Mundial (https://bit.ly/30zUESW) traz cenas fortes. As perspectivas globais pós-Covid são estarrecedoras. Considerando a hipótese de que não existirá novas ondas de contágio nas maiores economias – porque, se houver, nem o Banco Mundial se atreve a calcular a profundidade do poço em que estaremos metidos – a renda per capita mundial deverá ter a maior queda desde 1870. 

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que o tombo do PIB brasileiro será de 7,4% neste ano – na hipótese de uma nada improvável 2ª. onda de contágio, a previsão sobe para 9%, o que seria o pior resultado da série histórica apurada pelo IBGE.

Na perspectiva do Banco Mundial, os mercados emergentes e as economias em desenvolvimento serão afetados de várias maneiras e por vários trimestres: pressão sobre os sistemas de saúde, recuo nos setores do comércio e do turismo, remessas em queda, fluxos de capital moderados e condições financeiras restritas em meio a dívidas crescentes. 

No cotidiano das pessoas, o encolhimento econômico provocará uma piora sensível da qualidade de vida, principalmente para a população das economias em desenvolvimento. Faltará trabalho aos mais jovens e as crianças poderão ter a sua capacidade de aprendizado comprometida. O que é trágico, uma vez que a reação do mundo depende das novas gerações. E o Brasil nesse cenário?

Parecer existir um consenso de que a situação do País não pode mais ser avaliada apenas a partir da agenda neoliberal exibida pelo governo no período pré-pandemia: diminuição do Estado, abertura comercial, controle fiscal e desregulamentação.

Não se trata de ser contra o receituário. Até concordo com a maioria dos remédios prescritos. Mas é que eles não conseguem dar conta da nova realidade. O mundo pós-pandemia é impróprio para menores e para neoliberais sem jogo de cintura. Como, então, iremos recuperar a economia, mitigar danos, sem comprometer os poucos avanços conquistados? 

Operando com capacidade ociosa, diante de um cenário coalhado de incertezas, não se pode esperar grandes investimentos das empresas brasileiras. Tampouco investimentos diretos de empresas estrangeiras. Há uma fuga de capitais na direção de ativos conservadores. E os sinais que Brasília dá ao mundo só dificultam ainda mais os negócios: os ataques à China, a incapacidade crônica de gerir a crise sanitária, e a leniência com os controles ambientais, queimaram o nosso filme junto à comunidade internacional.

Some-se a isso a postura da Argentina, espécie de espelho regional, que não está honrando os seus compromissos com o mercado financeiro mundial, o que colabora na percepção de fragilidade das economias latino-americanas.

Pelo menos, há a expectativa de uma safra recorde neste ano. Mas fico preocupado se isso não irá ofuscar ainda mais a condição de saúde da indústria nacional – que respira por aparelhos na UTI. Pois não existe possibilidade de recuperação sustentável sem um setor industrial competitivo. Não em um país como o Brasil, com dimensões continentais, complexo e com uma população urbana que necessita empregos de qualidade.

A indústria precisa de ajuda ativa do governo, sim. Por exemplo, no acesso ao crédito e na recuperação do consumo. Nesse ponto, merecem atenção especial as PMEs, que sofrem mais com a pandemia e que, se sobreviverem a ela, terão pela frente um cenário desafiador e uma estrutura sucateada para enfentá-lo. A mão do governo tem de ser direcionada à mitigação dos efeitos provocados pela pandemia. Pois, tão importante quanto fortalecer a indústria, é convencer os mercados de que sabemos o que estamos fazendo. 

E é claro que não existe indústria fortalecida se os cidadãos estiverem doentes. A questão da saúde pública, do emprego e da educação, principalmente a educação básica para as populações mais carentes, que ficou esquecida nesse emaranhado de brigas sobre o isolamento social, é fundamental e tem de ser tratada simultaneamente e de maneira decisiva. Essa criançada merece a chance de um futuro.

Enxergo apenas coisas ruins? Acho que não. Minha esperança é que o mundo reafirme e acelere o caminho para uma economia mais sustentável. Para a cadeia de alumínio brasileira, essa mudança é boa, mas é melhor ainda para o planeta e para as gerações vindouras, essas que estão proibidas de ler esse texto...


Milton Rêgo é Presidente-executivo da Abal (Associação Brasileira do Alumínio)