28/04/2020
COVID-19

Como ficarão os preços dos metais em 2020?

O índice de preços de metais e minerais do Banco Mundial caiu 4.7% no primeiro trimestre de 2020, em comparação com igual período do ano passado, seguindo dois trimestres consecutivos de declínio. De acordo com a análise do Banco, a queda reflete uma forte retração na atividade global de manufatura, devido à pandemia Covid-19, apesar de medidas de estímulo sem precedentes para suportar a demanda. As crescentes disrupções na oferta para a maior parte dos metais não superaram a redução da demanda. A queda de preços dos metais projetada para 2020 é de 13,2%, com a expectativa de um prolongamento das crises de saúde e econômica. Os riscos desta previsão estão relacionados ao declínio, incluindo a possibilidade de um colapso mais acentuado na demanda industrial global e uma menor efetividade das políticas de estímulo. 

Alumínio 

Os preços do alumínio caíram 3,8% no primeiro trimestre, que foi o sétimo de declínio consecutivo. No final de março, os preços caíram para o nível mais baixo em quatro anos. A pandemia Covid-19 afetou fortemente a indústria do alumínio, devido principalmente ao grande impacto na indústria automotiva. A demanda global por automóveis enfraqueceu, e a maioria das fábricas na China, Europa e Estados Unidos fecharam temporariamente. A produção de automóveis caiu mais de 30% no primeiro trimestre de 2020, a maior queda desde a crise financeira global de 2008. Apesar da demanda fraca, ocorreram cortes limitados de produção de alumínio na China – que responde por mais da metade da produção global do metal. Lá a produção cresceu 2,8% em bases anuais nos dois primeiros meses de 2020. As estimativas são de que os preços do alumínio se reduzam 10,8% em 2020. 

Cobre

Os preços do cobre caíram 4,5% no primeiro trimestre de 2020, depois de um forte aumento no quarto trimestre de 2019. Os preços aumentaram em dezembro, em resposta à primeira fase do acordo de comércio entre China e Estados Unidos e a resolução do Brexit. Entretanto, começaram a cair em janeiro de 2020, com o crescente receio de que a pandemia conduzisse a uma crise de saúde que detonaria uma crise econômica, além de amortecer a demanda industrial global por cobre. Em meados de março, os preços caíram abaixo de US$ 4.700/tm, o nível mais baixo desde o quarto trimestre de 2016. A atividade de manufatura na China – que responde por mais da metade do consumo global de cobre – entrou em colapso nos meses de janeiro e fevereiro de 2020, devido aos lockdowns. Da mesma forma, setores intensivos em uso do metal na Europa e Estados Unidos tiveram forte contração em março, com a eclosão da pandemia. As demandas frágeis mais do que superaram as interrupções da produção. Minas no Chile e Peru – que, juntos, são responsáveis por cerca de 40% da oferta global de cobre – ficaram fechadas por 15 dias, obedecendo às determinações de quarentena.    

Suspensões de produção também ocorreram na República Democrática do Congo, México e Zambia. As projeções indicam que os preços do cobre devem se manter fracos, cerca de 13,5% mais baixos em 2020. 

Minério de Ferro

Em contraste com os metais, os preços do minério de ferro tiveram ganho de 2,4% no primeiro trimestre de 2020, após um declínio no último trimestre de 2019. O incremento de preços refletiu amplamente as interrupções na oferta relacionadas com as condições do tempo, incluindo ciclones na Austrália e fortes chuvas no Brasil. Os preços foram suportados por uma robusta produção siderúrgica na China, que responde por aproximadamente dois terços do comércio transoceânico de minério de ferro. As siderúrgicas não cortaram produção em resposta à pandemia, devido aos custos envolvidos com a retomada das usinas. Mas as previsões indicam que os preços do minério de ferro devem ficar 9.4% mais baixos em 2020, devido à fraca demanda global de aço e recuperação da oferta da Austrália e do Brasil. 

Chumbo

Os preços do chumbo declinaram 9,4% no primeiro trimestre, anulando os ganhos do segundo semestre de 2019. Em março último, os preços caíram abaixo de US$ 1.600/tm, a primeira vez desde o quarto trimestre de 2015. O impacto das vendas anêmicas globais de autoóveis (cerca de 80% da demanda de chumbo são as baterias automotivas) agravaram os efeitos das disrupções na oferta, incluindo a suspensão temporária da atividade de mineração na China e dificuldades dos smelters em assegurar matéria prima para a produção secundária de chumbo (ou seja, sucata das baterias ácido-chumbo). A China produz mais da metade da oferta global de chumbo e quase metade disso é metal secundário. As previsões de preços para o chumbo indicam uma queda de 14,9% em 2020. 

Níquel

Dentre os metais base, os preços do níquel tiveram a queda mais aguda no primeiro trimestre de 2020, caindo 17,3%, contrastando fortemente com os altos preços do segundo semestre de 2019. A demanda por produtos de aço inox – que responde por cerca de 75% do uso global de níquel – foi fortemente afetada na China (maior consumidor mundial) e Itália (principal consumidor na Europa), devido aos lockdows. A queda na demanda de níquel mais do que superou as disrupções na oferta. O banimento das exportações de minério de níquel pela Indonésia – que havia puxado os preços para cima em 2019, devido aos esforços antecipados para formar estoques -- entrou em vigor em janeiro de 2020. As Filipinas, que supre 70% das importações de minério de níquel da China, suspendeu as operações mineiras na província de Surigao del Norte, onde estão localizadas a maior parte das minas do país, devido à pandemia. Assim, as projeções para o preço do níquel indicam um declínio de 17,3% em 2020. 

Estanho 

Os preços do estanho tiveram uma queda de 2,6% no primeiro trimestre de 2020, marcando o quarto trimestre consecutivo de queda. Em meados de março, os preços caíram para o nível mais baixo em quatro anos, chegando a US$ 14,000/tm. O declínio de preços reflete a fraca demanda do setor de solda para eletrônicos, que responde por aproximadamente a metade de todo o consumo mundial de estanho. O maior produtor mundial do metal, a PT Timah, da Indonésia, segurou suas exportações, enquanto as principais minas do Peru suspenderam as operações, devido à pandemia. Entretanto, as disrupções de produção não foram suficientes para superar a contração na demanda. As estimativas apontam que o preço do estanho deve permanecer fraco, com uma baixa de 15,9% em 2020. 

Zinco 

Os preços do zinco declinaram 10,9% no trimestre, depois de um pequeno incremento no último trimestre de 2019. No final de março, os preços ficaram abaixo de US$ 1.800/tm, o nível mais baixo em quatro anos. A demanda por zinco esteve frágil devido a uma forte contração nos setores de uso final, como edificações e autos, onde as disrupções causadas pela Covid-19 tiveram pouco impacto no suporte aos preços. A retomada de produção em minas da China foram postergadas, e a produção de zinco refinado nos smelters se reduziu. As operações de minas no Peru, que respondem por cerca de 11% da oferta global, também foram temporariamente suspensas. As previsões para os preços do zinco são de que os mesmos ficarão 25,5% mais baixos em 2020. 

Porém, o Banco Mundial ressalva que essas previsões estão sujeitas a alguns fatores de risco. Primeiramente, a extensão do uso de medidas restritivas para estancar o surto do vírus, tais como restrições a viagens e fechamento de negócios que reduzam a demanda industrial por metais e deprimam os preços, especialmente para o alumínio, cobre e zinco, os quais são extensivamente usados na construção e transporte. Em segundo lugar, os estímulos fiscais e monetários proporcionados pelos governos e bancos centrais podem se mostrar menos efetivos em incrementar a demanda por metais, já que a pandemia é também um choque adverso na oferta. As quarentenas afetaram severamente as cadeias de suprimento e forçaram os trabalhadores a permanecer em casa. Um movimento positivo nos preços pode ser desencadeado por uma contenção da pandemia mais rápido do que se espera e uma retomada econômica mais forte. As disrupções nas cadeias de produção e oferta, que tiveram impacto limitado sobre os preços dos metais, podem ser um suporte quando a recuperação estiver ocorrendo. 

Metais Preciosos 

Em contraste com os outros metais, o índice de preços dos metais preciosos do Banco Mundial teve um ganho de 5,4% no primeiro trimestre de 2020, liderado pelo ouro. O incremento nos preços do ouro reflete uma corrida em busca de ativos de salvaguarda em resposta à pandemia Covid-19, já que os bancos centrais flexibilizaram suas políticas monetárias. No entanto, os preços da prata e platina declinaram, uma vez que a queda na demanda física superou largamente as disrupções na produção. Os preços dos metais preciosos devem aumentar em média 13,2% em 2020, conforme as previsões. Os riscos para estas estimativas advêm de uma retração maior do que a esperada e de um possível fortalecimento do dólar americano. 

Os preços do ouro aumentaram pelo sexto trimestre consecutivo – ganhando 6,9% no primeiro trimestre de 2020. Os preços foram influenciados pela maior compra por parte daqueles que buscam salvaguarda no metal, devido à elevada incerteza, e por uma agressiva flexibilização da política monetária dos bancos centrais – as taxas de juros caíram para os níveis historicamente mais baixos e com grande rapidez. As disrupções na produção das minas devido a medidas de contenção da pandemia, especialmente na África do Sul e América do Sul, também suportaram os preços. 

A capacidade global de refino também caiu consideravelmente. As refinarias suíças – que processam um terço da oferta global de ouro – suspenderam operações, enquanto as refinarias em Cingapura e na Turquia operaram com capacidade reduzida. A forte demanda dos investidores e as disrupções na oferta ultrapassaram em muito a demanda da joalheria na China e Índia, associado aos lockdowns. 

A previsão é que os preços do ouro fiquem 14,95% mais altos em 2020. Os preços da prata, por outro lado, caíram 2,3% no primeiro trimestre, depois de um incremento no segundo semestre de 2019.  Em março, os preços caíram a níveis nunca vistos após a crise financeira global. O declínio de preços reflete um maior uso da prata na indústria, que foi severamente impactada pelos fechamentos devido à pandemia. A queda na demanda superou as disrupções na produção como decorrência do fechamento de minas no México e Peru. Os preços da prata estão historicamente baixos em relação ao preço do ouro e devem ter uma modesta recuperação, ficando 3,6% mais altos em 2020. 

Os preços da platina declinaram 0,6% no primeiro trimestre. Com trajetória similar à da prata, a platina teve uma queda de preços superior a 20% em março – chegando ao nível mais baixo em 17 anos – já que a demanda por automóveis despencou (a platina é usada nos conversores catalíticos dos motores de carros, para reduzir as emissões perigosas). As disrupções de oferta na África do Sul deram algum alento aos preços. As perdas na oferta incluem uma parada de 21 dias em todas as minas sul-africanas e uma explosão em uma grande planta de processamento. A previsão é que os preços da platina fiquem em níveis 8,8% mais altos em 2020. 

A razão de preço ouro-cobre, que é uma espécie de barômetro do sentimento global, alcançou seu nível mais alto em quatro anos, puxada pela incerteza global. Da mesma forma, as razões ouro-prata e ouro-platina alcançaram as maiores altas de todos os tempos em meados de março. Mais da metade da demanda de prata e platina é para uso industrial.