08/03/2017
MULHERES NA MINERAÇÃO

A vez do sexo “frágil”

Assim como em outros segmentos industriais, a presença das mulheres vem aumentando também na mineração, ambiente com forte predominância masculina. E não é somente nos cargos de diretoria. O charme e a sensibilidade dessas colaboradoras chegam também à parte operacional, com eficiência e excelência nos projetos ou na operação de máquinas pesadas.

Conforme comenta Micheline Araújo, gerente de Gestão de Pessoas da Imerys, o trabalho de mulheres na área operacional do Grupo já é realidade há alguns anos, tanto que o processo seletivo busca apresentar ao menos 20% dos candidatos do sexo feminino. A maior parte dessas profissionais atua nos laboratórios da mineradora de caulim, “uma vez que as mulheres detêm a habilidade de realização de diversas tarefas ao mesmo tempo, o que é muito bem vindo nas áreas de laboratório e análises”, destaca Micheline.

No total, 9% do quadro operacional da Imerys é composto por mulheres, que valoriza o trabalho de suas colaboradoras: “não toleramos qualquer tipo de discriminação, seja racial, física, por orientação sexual ou mesmo de gênero, e me orgulho muito em dizer que não temos qualquer tipo de desconforto ou mesmo de diferenciação no ambiente operacional. Assim como conhecemos excelentes cozinheiros, por que não reconhecermos mulheres como excelentes operadoras de empilhadeiras, por exemplo?”, defende Micheline.

Nós, da revista Brasil Mineral, aplaudimos a importante colaboração do sexo feminino nesse setor tão árduo e, para homenageá-las, publicamos abaixo os depoimentos de algumas dessas guerreiras. Parabéns, Mulheres!!!!


Paixão veio de casa
* Por Fabrícia Brito, engenheira química da Imerys Caulim

“Desde minha infância, acabei sendo influenciada, mesmo sem intenção, pelo dia a dia que meu pai levava na Imerys. Quanta alegria eu sentia quando a família era chamada pela empresa, para conhecer o local de trabalho dos nossos familiares! Sentia tanto orgulho em ver o local de trabalho do meu pai, meu “ídolo”, que acabei escolhendo me graduar em engenharia química e trabalhar na indústria. Hoje tenho orgulho de fazer parte da mesma empresa em que meu pai trabalha. Posso dizer que realizei um sonho de infância.

Trabalhar na Imerys é prazeroso e muito desafiador. Atuo na área da produção há três anos, onde sou responsável, juntamente com o time operacional, por garantir as metas de produção e qualidade do nosso produto, o caulim. Analisar causas de possíveis problemas no processo, fazer a prevenção contra as falhas mecânicas e de automação, sugerir soluções para as causas das possíveis falhas que venham a acontecer, por exemplo, são alguns dos desafios diários que enfrentamos.

Além dos desafios comuns da minha função, ainda lido diariamente com o fato de ser uma das poucas mulheres atuando no setor operacional. Para ser respeitada, em minha opinião, é necessário primeiramente ganhar a confiança das pessoas com quem trabalho. Ser proativa e empática contribui muito para isso também, mas é necessário se mostrar sempre forte e determinada para que o fato de ser mulher não seja um obstáculo ao crescimento profissional e, claro, ao crescimento da empresa como um todo”.

Vocação pela engenharia
* Por Juliana Telles Ricca, Coordenadora de Produção Fertilizantes - Copebras Catalão (CMOC International Brasil. 36 anos, casada, sem filhos.)

 

“Trabalhar como engenheira sempre foi o meu sonho! Na escola, desde muito pequena, já conseguia perceber a minha facilidade e inclinação para as áreas exatas, mas foi a partir do segundo grau que a química tornou-se verdadeira paixão em minha vida! Com a vocação estabelecida, ingressei na faculdade de Engenharia Química e graduei aos 22 anos. Desde então, trabalho na minha área de formação, já são 14 anos, na Copebras, hoje empresa do grupo CMOC International Brasil que no país possui operações de nióbio e fosfatos, em Goiás e Cubatão (SP). Meu primeiro cargo foi como engenheira de processos, na unidade da empresa em Cubatão (SP), depois como engenheira de produção e, hoje, sou coordenadora de produção, posição que ocupo há oito anos, liderando 115 homens.
 

Há quatro anos, eu, que sou paulistana, mudei de Cubatão para trabalhar em outra operação de fosfato da empresa, localizada em Catalão (GO). Logo na minha chegada, já tive um grande desafio: aumentar a produção de fertilizantes. Desafio cumprido com louvor, muito trabalho e que considero um divisor de águas em minha carreira. Conseguir o total engajamento de uma equipe e motivá-la a cumprir metas é uma enorme satisfação. Sempre soube que a engenharia é uma área predominantemente masculina, mas, para lidar com minha equipe, encaro todos como um time, independente do gênero. Minhas relações são baseadas em respeito e a minha trajetória dentro da empresa, de degrau a degrau pelas funções, é um legitimador de minha atuação. Precisamos focar na habilidade profissional e, felizmente, nunca encontrei dificuldades em minha carreira por ser mulher. Sou extremamente feliz e realizada.”
 


Foco nos resultados
* Por Viviane Souza, 32 anos, entrou na AngloGold Ashanti em 2010, como trainee operacional.
 

“Sempre tive o sonho de trabalhar na área de mineração. Isso facilitou minha adaptação e dedicação ao trabalho. E a empresa sempre reconheceu isso. Tanto que fui a primeira mulher a ser escalada para trabalhar no subsolo, na mina de Córrego do Sítio I, a aproximadamente 560 metros abaixo do nível do solo”, relembra. Neste momento, ela já tinha o cargo de supervisão de mina subterrânea.
 

Seu empenho, foco nos resultados e cuidado com a segurança foram mais uma vez reconhecidos quando da criação do Centro de Controle Operacional da empresa, em 2012. “Fui convidada e logo aceitei o desafio de supervisionar o trabalho da equipe à distância, sendo novamente a primeira mulher a exercer esse papel, explica.
 

Nesse trabalho, ela supervisiona, em média, equipes de até 60 empregados. E como garantir a autoridade diante de um número tão grande de pessoas, em sua grande maioria homens? A resposta é simples e direta: “com companheirismo, pois já trabalhei por muitos anos onde eles estão hoje e, acima de tudo, com seriedade e foco em segurança, pilar na nossa empresa.”
 

Novos desafios aguardam por Viviane. “Estou sempre em busca de novas qualificações. Irei me formar em engenharia de produção em 2019 e quero muito crescer na empresa”, vislumbra.
 


Exploração Mineral foi uma oportunidade
* Por Joyce Barrancos, geóloga, gerente de planejamento e controle da área de Exploração Mineral da Votorantim Metais

“O que me fez ingressar na área de exploração mineral foi uma oportunidade. Eu me formei em Geologia em 2006, na Unesp de Rio Claro e logo entrei na Votorantim como geóloga. No começo eu queria conhecer as áreas, então ia para tudo quanto é lugar. Foi uma experiência fantástica. A escolha veio pelo processo que eu tinha passado, mas me apaixonei totalmente pela exploração mineral. Trabalhei cinco anos no campo com projetos de níquel, cobre, depois vim para o Corporativo, para a área de projetos especiais. Foi uma fase diferente da vida, e com uma outra visão.

Temos desafios todos os dias. Como toda mulher. Em algumas horas temos que nos impor mais para mostrar nosso potencial, mostrar o conhecimento geológico e do business para sermos reconhecidas. No campo existem algumas dificuldades porque os “meninos”, os auxiliares, nem sempre estão acostumados a trabalhar com mulheres. Não estão acostumados com o dia a dia de uma mulher, muito menos gerenciando um projeto. Mas temos que saber levar isto bem. Não adianta virar a mesa. E acho que mostrando seu potencial, o que sabe fazer, todo o conhecimento, consegue conquistar a confiança das pessoas, o reconhecimento e o respeito de todo mundo. Este é um grande desafio, porque as empresas são predominantemente masculinas, inclusive no corporativo. A Votorantim tem um projeto grande, de aumentar a quantidade de mulheres na mineração. Todas as empresas estão fazendo isso. Acho que a mescla de sexos só agrega para todo o mercado. Tento levar isso da maneira possível. Não é impondo nada como mulher que se obtém resultados e sim mostrando o potencial que tem, mostrando os trabalhos que faz.

Quando eu trabalhei no Pará, tive mais desafios em minha carreira. Trabalhei em cidades pequenas, nas fases iniciais, em que eu era coordenadora do projeto e lá senti mais essa diferença em relação aos colegas do sexo masculino. Quando eu andava no campo, encontrava com fazendeiros, com trabalhadores, eles perguntavam: ‘você é a menina que está lá?’ Uma vez aconteceu uma coisa muito engraçada, quando eu estava no único restaurante da cidade, esperando o carro me vir me buscar, porque eu iria embora naquela tarde. Daí chegou um “menino” para trabalhar e veio falar comigo: “Eu estou sabendo que algumas pessoas vão ser contratadas por aqui, você sabe sobre isso?” Era apenas boato de cidade pequena. Eu respondi: “Não, não tem nenhuma contratação”. Ele perguntou: “Você é esposa do proprietário, ou do coordenador”. Respondi: “Não, eu sou a coordenadora do projeto”. Ele tomou um susto e falou: “Eu não esperava uma mulher aqui”, relata Joyce.

A geóloga conta que no Pará trabalhou com níquel em Cumaru, no sul do estado. “Comecei minha carreira em Americano do Brasil, com níquel sulfetado, depois fui para Montes Claros de Goiás, depois atuei com ferro-níquel, também com níquel laterítico, em seguida fui para o Pará, onde tinha o projeto de níquel laterítico, mas também trabalhei um pouco com níquel sulfetado. E de lá fui trabalhar com zinco em Vazante, Minas Gerais, antes da abertura da mina do Extremo Norte. Isso ainda em exploração.

Depois disso fui para São Paulo, trabalhar com recursos minerais e logo fui para a parte de gestão. Hoje sou responsável pela parte de planejamento, controle, com todas as contratações, pagamentos de serviços de exploração mineral e há um ano assumi também a parte de segurança do trabalho na área de exploração, que é o meu grande desafio do momento. É uma área diferente, na qual eu não tinha muito conhecimento, e em que estou me capacitando, “correndo atrás”. Tenho uma equipe de quatro pessoas trabalhando comigo, em que sou a única mulher, mas vamos mudar isso: vamos colocar mais mulheres”, defende ela.

Quanto ao ingresso de mais mulheres na mineração, Joyce reforça que o campo está aberto para quem quiser tentar a Geologia, ir para a área de exploração mineral. “Este é um ramo que está mudando. Não devemos ver isso como uma dificuldade, mas como uma oportunidade de mudar o mundo, em que a mulher tem seu espaço e pode trabalhar em qualquer área. Esta é uma lição importante”, diz com entusiasmo.  

 

Quebrando tabus
* Por Pâmela Figueiredo, operadora de caminhão fora de estrada da mina de Abóboras, no Complexo Vargem Grande, da Vale.

 

"Mulher em volante é vista como 'roda dura'. O primeiro desafio foi quebrar essa visão dos homens. Depois disso, me adaptar ao ambiente em que eles são maioria. Eles não podem falar do mesmo jeito que falavam, com palavrão, por exemplo. Mesmo assim, todos me receberam muito bem desde o início. Se alguém sair do limite é só dar um alerta e fica tudo bem."

 

Natural de Ouro Preto (MG), Pâmela fez curso técnico de Mineração por causa das boas oportunidades oferecidas pela mineração na região: “Eu trabalhava como vendedora no comércio. Vi uma oportunidade de melhoria na mineração, que aqui na região é um mercado muito aquecido. Em 2011 comecei a estagiar numa mineradora da região. Uma das minhas tarefas era medir o tempo de ciclo dos caminhões, entre o carregamento, a basculação e a volta. Achei um desafio grande, especialmente por ser mulher. Na época tinha menos mulheres na área. Motivada pelo desafio, tirei a carteira D para dirigir caminhão. Em 2012 entrei para o Programa Formação Profissional da Vale. Comecei dirigindo caminhão de pequeno porte e depois passei para o fora de estrada."  

 

Fascínio pela grandiosidade dos equipamentos

* Por Joyce Freitas da Silva, técnica especializada em produção. Trabalha no setor de Expedição da Vale, em Carajás (PA). Maranhense, 31 anos, sua função atualmente é definir a estratégia operacional da expedição, ou seja, como será feito o carregamento do minério de ferro nos trens da Estrada de Ferro Carajás.

 

Joyce conheceu a Vale aos 19 anos quando se mudou para Parauapebas acompanhando o ex-marido que foi contratado numa empresa que prestava serviço para a Vale. Hoje Joyce é divorciada e tem uma filha de dez anos de idade. “Quando cheguei a Parauapebas fui trabalhar numa clínica médica. Na época fiz uma visita à Vale e achei fascinante: a grandeza de tudo, aqueles equipamentos enormes. A parte que mais me chamou a atenção foram os trens. Fiquei apaixonada. Eu já tinha viajando no Trem de Passageiros e gostei de conhecer como os vagões eram carregados. Via as mulheres andando com o uniforme da empresa na rua e passei a ter o sonho de trabalhar na Vale também”.
 

Em 2005 Joyce foi admitida no Programa Jovem Aprendiz. Trabalhou seis meses na planta e em seguida foi para o CCO, onde trabalhou por oito anos. Na época em que entrou havia menos mulheres do que hoje: “No primeiro lugar em que trabalhei só tinha eu e mais uma mulher. Hoje somos uns 20% na minha área. Nunca tive dificuldade por ser mulher, as pessoas sempre respeitaram meu trabalho. Minha família e a maioria dos amigos me deu apoio e se sentiu orgulhosa por eu trabalhar numa empresa tão conhecida. Alguns amigos criticaram, principalmente por causa da questão do turno, que é um pouco puxado. Tinha gente que achava que por eu trabalhar onde tem mais homem não haveria respeito. Mas não é assim. Muitos acham que é só serviço pesado, mas não é. Tem muito serviço técnico, de trabalho intelectual. É bom quando as empresas investem no programa de visitas para mostrar a realidade da mineração para a comunidade. As pessoas têm de saber que tem muita coisa além dos caminhões gigantes e que mulher também tem capacidade de trabalhar na mineração”.

A Vale estruturou em 2012 uma área no departamento de RH para trabalhar o tema da diversidade e da inclusão. Uma das linhas de atuação dessa área é no Programa Equidade de Gênero, que busca reconhecer e promover o talento e a capacidade da mulher sem criar um ambiente discriminatório. O projeto é composto de diversas ações, como a viabilização do aumento de mulheres nos quadros da empresa, a adaptação dos ambientes e condições de trabalho às mulheres, a conscientização de empregados sobre o assunto e a participação em eventos e fóruns sobre o tema.
 


Igualdade de oportunidades
* Por Elaine Ferreira Rocha, operadora de hidrometalurgia da Votorantim Metais.

 “Entrei para a Votorantim Metais, há três anos, como profissional de operação da hidrometalurgia. Na empresa, trabalho nos turnos de revezamento na área de lixiviação ácida.
 

Sou formada em Enfermagem, pela Faculdade Cidade de João Pinheiro (FCJP), e também trabalhei em farmácias da região. No entanto, eu sempre tive interesse em conhecer a área, mesmo sendo diferente das minhas experiências anteriores.

Ultimamente, os setores de metalurgia e mineração têm se destacado bastante em termos de oportunidades para as mulheres. Tempos atrás, isso não existia. Essas empresas só tinham mulheres trabalhando dentro de escritórios e era quase impossível ver uma profissional na operação. Na operação, a mulher mostra que é capaz de ocupar o mesmo lugar que o homem, desempenhando suas funções e tendo o suporte e maquinário necessários para tais. O atual cenário é importante para o crescimento da mulher na área. As mulheres vêm conquistando espaço e as oportunidades têm aparecido com mais frequência”.

Veja também

09/11/2017
ATLAS COPCO | Parceria em tecnologias digitais
09/11/2017
TECNOLOGIAS | ABB Ability marca 105 anos de Brasil
01/11/2017
EQUIPAMENTOS | Metso adquire australiana WEARX
25/10/2017
BENS DE CAPITAL | Faturamento cai 5,7% até setembro
11/10/2017
THYSSENKRUPP | Novo CEO para América do Sul
05/10/2017
CAMINHÕES AUTÔNOMOS | Caterpillar aumentará frota na Fortescue
28/09/2017
LEGISLAÇÃO MINERAL | Revisão do Código defendida em audiência