Lembranças e um pouco da história dos transportes em Carajás

Por Breno Augusto dos Santos

Nos primeiros dias de Carajás, só se chegava às clareiras de helicóptero...

Dois helicópteros voando sobre a área Pojuca, 
levando a equipe para o primeiro reconhecimento das clareiras N2, N3, N4 e N5 
(26 de agosto de 1967). 

Mas em setembro de 1967, o saudoso "Comandante" Adão conseguiu pousar, com o seu Cessninha 170 (PT-AOV), na clareira de N1... Começava a surgir a pista de N1, que atendeu os trabalhos da Meridional (United States Steel - USS), da AMZA (Vale/USS), com toda pesquisa do ferro, da DOCEGEO e da própria Vale, no início da implantação da mina de N4.

Com a ampliação da pista, nós que dependíamos apenas de monomotores, com maior risco e menos carga, recebemos em março de 1968, o primeiro bimotor: o famoso Piper Aztec PT-CXD da VOTEC.... Passamos a ter maior segurança e também a transportar mais carga e mais passageiros: 5 em lugar de 3...

Pouso do Cessna 170 PT-AOV na Clareira N1 
(26 de outubro de 1967)

Pouso do Cessna 170 PT-AOV, do lendário “Comandante” Adão Coelho de Barros
(17 de dezembro de 1967).

Construção manual da pista de pouso da Clareira N1 
(19 de dezembro de 1967)

Vista aérea da construção da primeira pista de pouso de Carajás, na Clareira N1
(19 de janeiro de 1968)

Construção manual da pista de pouso da Clareira N1. 
Ao lado, campo de futebol e, ao fundo, Serra Esquecida (Cururu) 
(15 de março de 1968)

Primeiro pouso de um bimotor, Piper Aztec PT-CXD, em Carajás, na pista da Clareira N1 
(28 de março de 1968)

Pouso do bimotor Piper Aztec PT-CXD na Clareira N1 (5 de abril de 1968)

Em setembro de 1968, a pista permitiu o pouso de um equipamento de maior porte, o Curtis Commander (C-46) PP-BTZ, com grande capacidade de carga, que possibilitou que o primeiro jipe Toyota e as primeiras sondas chegassem a Carajás.

No final de 1968, devido ao desentendimento do Tolbert com a USS, abandonamos Serra Norte com toda equipe...

Mas acompanhamos, à distância, a pesquisa da AMZA.... Vários tipos de aeronaves passaram a pousar na pista de N1, inclusive os famosos DC-3 (C-47) adquiridos pela AMZA da Varig.... Há rumores que um dos DC-3 era utilizado por Ruben Berta, famoso presidente da VARIG... Um dos DC-3 encontra-se na frente do Aeroporto de Carajás.... Jamais voei nesses DC-3...

Nessa época da pesquisa da AMZA vários acidentes ocorreram na pista, alguns fatais...

Pouso do Curtiss Comander (C-46) do “Comandante” Vilar, PP-BTZ, na pista da Clareira N1 
(27 de novembro de 1968).

Desembarque da carga do Curtiss Comander PP-BTZ, na Clareira N1
(27 de novembro de 1968)

Decolagem do Curtiss Comander PP-BTZ na pista de pouso da Clareira N1
(27 de novembro de 1968)

Com a paralisação dos trabalhos da AMZA, em 1977, a equipe e os equipamentos passaram para a DOCEGEO... E voltamos para a Clareira N1, com a sua pista, que passou a ser administrada pela DOCEGEO.

Mas com isso, aumentaram as responsabilidades da DOCEGEO... Como o governo estadual não fazia a manutenção da estrada até Marabá, durante algum tempo isso foi feito com os tratores e a motoniveladora da DOCEGEO, da Clareira N1 até Marabá.

Aproveitando os equipamentos, também começamos a construir a estrada do Salobo, pois toda pesquisa também era feita só com o apoio de helicópteros...

Nessa época, também negociamos, com a Transbrasiliana, a criação da primeira linha de ônibus entra Marabá e Carajás... Garantíamos um mínimo de lugares por viagem, para o transporte dos empregados que moravam em Marabá, mas a Transbrasiliana também podia vender passagens para os sitiantes que começavam a se fixar ao longo da estrada... E reduzimos os voos para Marabá... Alguns dias por semana o ônibus sacolejava até a Clareia N1, cruzando a canga da Clareira N5, onde ainda não havia estrada... Lembro a emoção de encontrar pela primeira vez um ônibus com destino a Carajás...

Acampamento da Clareira N1, administrado pela DOCEGEO 
(23 de novembro de 1978)

Vistoria da ponte sobre o rio Vermelho, na rodovia para Carajás 
(27 de fevereiro de 1978).

Apoio de helicóptero da Líder, no programa de sondagem da jazida de cobre-ouro do Salobo 
(22 de novembro de 1978).

Abertura da estrada para o Salobo, no trecho Pojuca- Itacaiúnas (Caldeirão)
(24 de novembro de 1978).

Primeira linha de ônibus para Carajás, mantida pela DOCEGEO
(26 de novembro de 1978)

Ônibus da Transbrasiliana a caminho de Carajás 
(26 de novembro de 1978)

Ônibus da Transbrasiliana da linha Marabá a Serra dos Carajás
(26 de novembro de 1978)

Com o aumento da atividade da Vale, na implantação do Projeto Ferro, e o advento de Serra Pelada, os voos fretados de pequenos bimotores, e eventualmente, do DC-3 da VOTEC e dos Fairchild FH-227 da TABA (que haviam sido da Paraense), tornaram-se mais frequentes e dispendiosos... A DOCEGEO chegou a ter cerca de mil empregados em Carajás e, além disso, tínhamos que transportar o ouro de Serra Pelada, o que exigia, por segurança, um meio regular.

Assim, a DOCEGEO negociou com a TABA a criação de uma linha entre Belém e Marabá, com escala em Carajás, na Clareira N1, na ida e na volta.... Os equipamentos FH-227, da TABA, passaram a voar regularmente, com a garantia da DOCEGEO por certo número de lugares.

Essa prática continuou até a inauguração do aeroporto de Carajás, no final de 1981, quando os voos da TABA passaram a ser regulares entre Belém e Carajás, sem a intermediação da DOCEGEO.

Desembarque de passageiros do FH-227 da TABA, na pista da Clareira N1
(4 de novembro de 1980)

Decolagem do FH-227 da TABA na pista da Clareira N1 
(4 de novembro de 1980)

Comitiva do CNPq na pista da Clareira N1, sob a asa do FH-227 da TABA
(24 de fevereiro de 1981)

Mas a pista de N1 foi aposentada com excelentes serviços prestados.... Nela pousaram dois presidentes: Geisel e Figueiredo.... Nela pousaram pequenos jatos, trazendo investidores, e futuros compradores de minério, para o Projeto Ferro, inclusive Robert McNamara, na época presidente do Banco Mundial...

No final de 1984, a VASP inaugurou a primeira linha de Boeing, entre Belém e Carajás. E o voo partia de Belém por volta da meia-noite...

Toda essa lembrança foi relatada em função do primeiro voo noturno, que fiz de Belém a Carajás, no jato da VASP.

Havia participado de solenidade no velho casarão do Instituto Geográfico e Histórico do Pará, quando o arquiteto e amigo Alcyr Meira foi homenageado como novo membro.... Ao deixar o prédio, para seguir diretamente para o aeroporto de Val-de-Cans, caía a costumeira chuva noturna de Belém, e seus belos azulejos estavam molhados...

Vila Provisória da Clareira N5.

Chegar a Carajás de madrugada foi um grande impacto emocional, que foi ampliado por me hospedar no hotel que havia na antiga Vila Provisória de N5. Lá estava uma equipe inglesa, com um falcão amestrado, para a filmagem de "A Floresta das Esmeraldas"... Tudo estava muito diferente...

Custei a pegar no sono.... Foi como chegar na casa de um filho, notar que ele estava totalmente independente, e com hábitos todos mudados...

E então, antes de adormecer, escrevi pequenos versos sob os impactos e as emoções da noite vivida...